Era 6:38 da manhã, eu estava de bobeira na cama, estava cedo,
frio e a preguiça não deixava nem abrir os olhos direito.
De repente aquela colicazinha veio.
Meus pensamentos voaram: “Ué o que foi isto?!?!?”
Continuei deitada na cama.... 15 minutos depois mais uma colicazinha..... “Ai
meu Deus”
Levantei fui caminhar na sala.....mais 15 minutos e outra colicazinha... “É
hoje!!!!”
O sorriso estampou meu rosto de orelha a orelha.
O marido foi atrás de mim saber o que foi “É hoje, já põe as coisas no carro.”
eu disse
Era uma mistura de ansiedade, medo, felicidade, amor.... Difícil explicar o que
estava sentindo, mas era muito bom...
Meia hora mais tarde, as contrações tomaram ritmo de 5 em 5 minutos.
Caminhei, rebolei, agachei, fazia tudo àquilo que o meu corpo mandava, estava
literalmente me abrindo para uma nova era...
La pelas 8:30 liguei para minha Doula AnaLu, “Aninha é hoje, vem para ca”
Também liguei para a minha medica Dra Ana Claudia Codesso (mais uma Ana na
minha vida)“ Dra Ana, contrações de 5 em 5 mas bem curtinhas ta, então acho que
vai demorar”
Continuei no mesmo ritmo, quando a AnaLu chegou eu estava de quatro na sala e
estava sentindo que tudo estava diferente.
Comecei a vocalizar, não conseguia mais segurar, era uma vontade de gritar
“Aaaaaahhhhhh”
A cada contração, vinha lá de dentro do meu ser um grito, que não podia ser
parado.
Logo a caminhada, agachada, rebolada, os gritos, as massagens,
nada aliviavam aquela dor. Perguntei a AnaLu “Que horas vamos no hospital” E
com toda aquela calma do mundo ela respondeu “A hora que você quiser”.“Então vamos porque a coisa apertou”. Ela me deu um sorriso e disse “Tu já estas diferente, as contrações estão de 3
em 3 minutos, vamos la”.
No carro, fui no banco de trás, tentando ficar sentada (que
posição horrível) era de quatro que aliviava, AnaLu foi fazendo massagens em
minhas costas. Nossa como ficar em um local pequeno e quase sem possibilidades de movimento
foi ruim, a dor aumentou e com ela veio o medo. Tadinha da AnaLu fiquei pensando que ela iria ficar surda, eu vocalizava muito
alto no carro, mas era meu primitivo falando, ela dizia “Não te preocupas a
Doula agüenta”.
No trajeto tentávamos ligar para a Dra Ana, mas o telefone dela não estava
pegando! Eu só pensava “Respira, calma.....” Faltando pouco para chegar ao hospital, começou a vontade de fazer força “Ai
meu Deus, esta guria vai nascer no carro” AnaLu só falava “Calma, respira, deixa
as contrações virem”
Eu tinha vontade de chorar, mas as lagrimas não saiam, era uma
mistura de sentimentos e também o medo de não saber o que vinha pela frente.
Chegamos ao hospital, fui direto para a avaliação “Já esta com 8
centímetros, colo apagado e ela já esta aqui” disse a enfermeira, com um belo
sorriso.
No corredor indo para uma sala, encontramos o plantonista, a enfermeira passou
as informações para ele, e ele perguntou “É cesárea?” Eu gritei “NÃO”
Quando cheguei a sala de parto, AnaLu e o meu marido apareceram logo em
seguida.
Colocaram-me deitada numa maca, o plantonista me avaliou “Já esta com 10, vamos
romper a bolsa” “Não quero” eu disse “Deixa ela romper sozinha”, mas foi em
vão. Ele enfiou a comadre embaixo de mim e estourou a bolsa.
As dores pioraram e eu só dizia “Quero anestesia, não aguento” ficar deitada,
deixava tudo pior.
Fui levada para outra sala, agora na maca pude ficar semi-deitada.
“Põe as pernas nas perneiras, mãezinha” Falou a enfermeira. Eu disse “Não
quero” e o plantonista revidou “Tu não é índia para ganhar de cócoras”
Naquele instante meu mundo desabou, entendi que aquele plantonista era o tipo
de “medico” de quem eu fugi a gravidez inteira. Ele era mais um que não sabe
tratar as mulheres com respeito na hora mais preciosa e sensível delas.
Contra minha vontade colocaram minhas pernas “naquilo”.
Tentava respirar, tentava me ajeitar, tudo estava errado, não foi assim que
imaginei, e não era assim que deveria ser.
Logo apareceu uma enfermeira tentando pegar minhas digitais para o cadastro do
hospital, acho que ela entendeu que não era a hora certa quando ela pegou minha
mão e ganhou meu olhar fuzilador!!!
Na outra mão, outra enfermeira me colocando um acesso com soro, eu dizia “
Precisa mesmo disto?” e ela “Sim”.
Aquele acesso caiu da minha mão direita DUAS vezes. Então colocaram na
esquerda, com uma fita bem firme.
Naquela altura as contrações eram insuportáveis, e a minha vocalização estava
no auge até que o plantonista me mandou calar a boca “Tu ta fazendo escândalo,
fica quieta”.
“Meus Deus, o que faço? Senhor só me da forças” eu implorava em pensamento.
AnaLu e o marido, cada um de uma lado. AnaLu com aquela mão leve e suave era a
minha fortaleza que não me deixava desabar e desistir, hora com a mão no meu
ombro, hora colocando aquele paninho gelado na testa. Como um simples pano
molhado e gelado teve tanto impacto naquele momento.
Agora foi a hora de fazer força, e o plantonista me explicou como fazer.
“Queixo no peito, segura a respiração e faz força para baixo, segura nestas
barras e “puxa” para trás.
Mas como a Thays sempre foi delicada (hahah), tentava fazer tudo aquilo, mas
teimava em puxar as barras para cima, e como elas são só encaixadas, saiam nas
minhas mãos, as enfermeiras pegavam, colocavam novamente e eu tirava. Ate que
eu desisti de segurar aquilo e me agarrei as barras das perneiras.
“Olha aqui paizinho” disse o plantonista “Já da para ver os cabelinhos”. E lá
vai o marido olhar!!!!
Logo em seguida veio “Tu ta fazendo força errado, assim não da”
Eu tentava não olhar para o plantonista, mas eis que sinto umas picadas. Fui
obrigada a olhar e la estava ele segurando uma seringa. “Não quero episio”
Falei bem certa de que ele estava me dando anestesia local.
“Vamos ver” disse ele em tom irônico.
Novamente ele disse “Assim não adianta, vou ter que .....” Não consegui
entender o que ele falou, ele se levantou deu dois passos para traz e pegou das
mãos da enfermeira um utensílio. Eu sabia o que era um fórceps, mas não
acreditava que era tão grande. Quando ele veio na minha direção, eu só fechei
os olhos, virei a cabeça de lado. Não lembro se só pensei ou se falei “Deus me
ajuda”
Não lembro de sentir o ferro entrando, mas lembro muito bem de sentir saindo e
junto levando minha filha, pequena e indefesa. Nada bom.
Colocou ela em cima de mim, toda ensangüentada, não pude ver seu rosto, estava
de costas.Ela logo chorou e eu dei graças por ter terminado aquele horror, ilusão minha.
Ela nasceu as 12:40 da manhã, com lindos 2.730Kg e 49,5 cm, uma
bonequinha.
Ao piscar os olhos “Cadê minha filha?” eu perguntei a AnaLu e ela respondeu
“calma teu marido ta junto dela”. Eu tremia tanto, era tanta adrenalina correndo em minhas veias, que eu não
conseguia nem respirar direito.
Logo a enfermeira a trouxe, toda enroladinha. E pôs no meu colo,
pedi ajuda a AnaLu para me ajudar a segura-la, a tremedeira estava forte, tinha
medo de deixar cair.
Tiramos uma foto. Outra enfermeira abriu minha roupa e fez a
minha pequena Giulia colocar a boca no meu seio e lógico ela nem abriu a boca,
não sabia de quem era aquilo. Ficou ali comigo uns 5-10 minutos e logo levaram para dar banho.E o plantonista ainda estava lá, me costurando, ele fez a
episio, foram 7 pontos. Quando ele terminou, falou a frase de ouro “Vou tirar a placenta” e eu ainda
tentei e rebati “Não da para esperar ela sair naturalmente?” mal terminei a
frase ele puxou e ali veio uma ultima e dolorosa contração.
AnaLu ainda me disse “Olha a placenta” eu não estava com animo para nada, eu
estava me sentindo num show de horrores, sabendo que tudo aquilo não deveria
ser daquele jeito. Mas olhei, mentalmente agradeci por ela ter nutrido minha
filha.
Graças aos céus aquele plantonista sumiu da minha vista. E minha
princesa veio finalmente para ficar comigo. Ela estava dormindo, eu penso que
quase hibernando, para ela também foi sofrido e doloroso, sentir tudo que
sentimos, não foi fácil. Então ela assim permaneceu até que fomos para o quarto
as 19h. La estava minha mãe e a AnaLu, consegui tomar banho, com ajuda da
enfermeira, aqueles pontos "ui", enquanto Giulia era paparicada pela nova Vovó.
Consegui sentar na poltrona e ela veio, cheia de fome, se
agarrou no seio e lá ficou mamando, as vezes abria os olhos, ficamos assim
quase uma hora, nos reconhecendo. Tínhamos que nos reconectar. Não foi fácil amamentar, mas eu sabia que era necessário, era somente aquilo
que Giulia precisava. Meu calor, meu colo, meu seio, meu leite, meu cheiro.
E assim terminamos a primeira de muitas aventuras.
Agradeço de todo o coração a AnaLu por estar comigo me dando forças.
Ao meu marido e parceiro por acreditar na minha força. E a Deus por sempre
saber o que eu preciso passar. Nunca nada é por acaso.
Hoje a minha razão de viver completa 3 anos. E eu acabei virando
DOULA, para principalmente passar informações de qualidade às pessoas, dar
apoio emocional e físico.
Nada nunca é por acaso, eu precisei passar por tudo aquilo. Hoje
agradeço a Deus, por colocar em meu caminho as pessoas certas e no tempo certo.