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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Relato de parto domiciliar da Analu e nascimento do Joaquim

Colocar as primeiras palavras sobre um evento que mudou minha vida totalmente, é emocionante demais. Colocar cada palavra aqui vai ser um misto de alegria e saudade, mas também lembranças tristes e de superação. Vou começar pelo comecinho, quando vi as 2 listras no teste de farmácia e minha vida deu uma guinada de 180 graus. Fiquei radiante ao ver o positivo pois estava saindo de um luto, uma perda de 7 meses. Na verdade engravidei na época que estaria parindo meu outro filho, a emoção bateu forte. Logo fizemos uma ecografia e la estava o embriãozinho de +/- 6 semanas, e tudo estava indo bem. Não sei bem em que momento me perdi... cai em depressão profunda (ai já começavam os ensinamentos que eu tinha que aprender, profundos e transformadores), foram dias tristes, de muito sofrimento e aprendizado, mas por causa do amor da minha família e apoio de amigos, fui conseguindo sair aos poucos dessa. Logo tudo se normalizou, a felicidade e amor imperavam em minha casa.Os manos eram só alegria e entusiasmo, loucos para conhecer o irmão!

Assim que foi possível voltei a praticar Yoga e assim foi quase toda a gestação. A prática me acalmava, me dava equilíbrio e tranquilidade, e me fez adquirir um pouco mais de autoconhecimento. Fui fundamental na minha gestação.


Depois de muito pensar, avaliar as opções que tínhamos, tomamos nossa decisão quanto a equipe. Começamos o pré natal com o obstetra Ricardo Jones e com a enfermeira Neusa Jones, ambos se mostraram muito atenciosos e logo falamos de nossa intensão de realizar o parto em casa. Dados os valores, saímos de lá decididos a levantar este dinheiro. Minha doula já estava eleita desde a gestação anterior, seria minha amiga querida Juliana Pena, a qual temos uma relação muito sincera, verdadeira. 

Cheguei em casa depois da consulta pensando em várias formas de juntar a grana. Comecei a tentar vender meus produtos mais e mais. Tive a ideia da vakinha com doações espontâneas a causa, fiz 2 rifas, tive ajuda de amigas com mais rifas e promoções. Embora com muitas pessoas ajudando, e eu economizando daqui e dali, não teria conseguido a grana sem a ajuda de pessoas mais que especiais e que AGRADEÇO ETERNAMENTE! Vocês moram no meu coração! TODOS que nos auxiliaram de alguma forma são muito especiais para mim!

Em novembro decidi fazer o Chá de Bençãos do Joaquim. Convidei minhas "douladas" queridas e amigas com seus companheiros, além de é claro, minha doula. A energia do dia era maravilhosa, me senti mimada, paparicada e amada por todos. Depois Juliana, minha doula fez um ritualzinho, onde cada pessoa abençoava a mim e ao Kim. Foi emocionante demais. Depois todas as mulheres fizeram um circulo em minha volta, depositando toda energia ancestral. Realmente foi um dia maravilhoso!

Circulo de mulheres

Depois do comecinho difícil, o final foi um pouco angustiante e triste devido meu marido ter ido trabalhar em outra cidade por 3 meses (mesmo ele viajando para casa todos os dias, mal nos falávamos e o estresse era grande, pouco conseguíamos nos conectar), além das reformas que apareceram de última hora e que deveriam ser feitas. E tinha o calor aqui do Sul de 50 graus que tornavam os dias cansativos e desgastantes. Mas vamos lá! Tínhamos que seguir e me obriguei a me acalmar e concentrar na chegada do pequeno, no meio de toda a bagunça. E assim coloquei uma rotina de ouvir musicas que me tocavam a alma, dançar muito, rebolar na bola, ler partos, ver partos, meditar, me recolher em mim mesma, me ouvir... Meu marido e eu fizemos uma aula de Yoga juntos para resgatar nossa intimidade, nossa conexão e foi uma delicia.

Yoga




Nas consultas com Ric e Zeza tudo corria bem e se encaminhava tranquilamente! Com 36 semanas, na Lua Cheia, senti muitas contrações, cheguei a pensar que Joaquim viria ali (até a avisei minha doula e meu obstetra), e meus planos de parir em casa iriam por terra (parto domiciliar a partir de 38 semanas disse meu obstetra, senão seria no hospital), mas não passou de um ensaio do pequeno e tudo se acalmou depois. Quando estava com 39 semanas comecei a sentir contrações novamente. Elas vinham a cada 2 – 1 hora, e as vezes menos. Mas eu tinha colocado na minha cabeça que até resolver tudo, reforma, marido e calor, eu não iria parir. Queria estar segura e tranquila. E assim foi, depois que a reforma acabou, meu marido não precisava mais ir a outra cidade, e o calor tava dando uma trégua (continuava quente, mas já dava pra ficar na rua) as contrações começaram a vir a cada 1 hora, baixando para 30 minutos.

Fazendo um bolinho delicia!

Bê extravasando a ansiedade

Nós!

Fiquei assim por 10 dias, em pródromos, me preparando. Dia 17 de fevereiro, começou a sair o tampão, comemorei!! Fui fazer um bolo com minha filha Sofia, enquanto Bê comemorava no xbox, rs, e depois tirei fotinhos da barriga me despedindo. No dia 18 recebo a notícia da minha doula de que uma amiga minha, Andrea (que também tinha como equipe Zeza, Ric e Ju) estava em trabalho de parto! Eu vibrei de alegria por ela, tínhamos DPPs perto e tínhamos medo de entrar juntas em trabalho de parto, mas o Universo trabalha por meios incríveis, é sábio!

O tampão...

Dia 19 pela manhã saiu o resto do tampão, e eu fiquei aguardando, ansiosa, notícias da Andrea, como ela estava, se já havia parido. Meu cachorro Marley ficou grudado em mim o tempo todo, sabendo o que viria. E neste mesmo dia, na hora do nosso cafezão noturno, as contrações que já estavam a cada 30 minutos, diminuíram de intervalo e ficaram mais doloridas. Então, Ju me avisou por mensagem que Andréa havia parido e que estava indo para casa descansar, e que se mudasse algo que eu a avisasse. Parecia que era só isso que faltava para Joaquim decidir vir de uma vez. Sincronia perfeita! 

Cada contração vinha dolorida e o intervalo estava entre 20- 15 minutos, as vezes menos. Fiquei com pena de avisar minha doula que arressem havia chegado em casa, mas meu marido pensou que fosse melhor e avisou. E eu fui tomar um banho demorado e barulhento, vocalizando e me agachando muito. Meus filhos, Bernardo e Sofia, não conseguiam dormir devido os mantras da mamãe, rs, mas depois de um tempinho caíram no sono. Não consigo colocar horários aqui, mas creio que já era perto das 23 hs. Meu marido foi organizando as coisas, arrumando o quarto, inflando a banheira e esquentando a água. Ele estava entusiasmado, e se eu tinha dúvidas que o parto ia engrenar dessa vez, ele tinha certeza!

Meu altar!

Meu cantinho pronto!



 Me lembro de estar no chuveiro quando minha doula chegou. E depois de um tempo sai do chuveiro e fui para o quarto, que estava lindo com rosas vermelhas e a meia luz, a banheira já inflada e meu marido enchendo ela. Me perdi no tempo, me perdi em mim mesma... Cada contração era uma alegria! Poder viver o trabalho de parto na minha casa me deixava em paz, segura! Fui, me soltei, me despi, me entreguei aquele momento como nunca imaginei que conseguiria fazer.  Meu quarto vibrava AMOR e PAZ. Senti a presença de todas mulheres, minhas ancestrais ali, foi mágico, poderoso! Chamava meu filho em vários momentos, me lembro do meu marido em alguns momentos comigo, de mãos dadas, em outros minha doula me massageando, me oferecendo florais, me dando conforto, me lembrando que eu estava muito bem ... 

Apoio, carinho...

Mãos maravilhosas e água relaxante...


Me lembro em um momento que comecei a sentir vontade de fazer cocô, uma pressão e pensei “esta próximo!” ...Viveria mil vezes, mil vezes este momento, tudo igual, sem mudar nada ... Não sei quando, Ricardo e Zeza foram avisados, e ouvi que eles estavam chegando. Pela primeira vez temi, pensei “ e se eu não estivesse tão avançada, e se estivesse no começo ainda, e se eu travasse?”. Neste momento senti que as contrações aumentaram de intensidade, estavam diferentes, mas não tinha me dado conta do porquê.

Ric e Zeza chegam ... 9 cm!                                 

Fui para a banheira, sai da banheira, e nada estava bom. Claro que passou pela cabeça que uma analgesia naquele momento seria uma boa, rs, mas sabia que logo acabaria. Bateu o momento desespero “o que faço? Pra onde corro? Que posição?” e então Ric e Zeza chegam. Falei qualquer coisa do tipo "Ai Zeza, não consigo" ou "não estou aguentando" e ela me encoraja dizendo palavras de apoio. Ric pede para eu deitar , escuta o coraçãozinho do Joaquim (batia vigorosamente) e então ocorre o primeiro e único exame de toque.... 9 cm!!! Um rebordinho só! Por isso a sensação de perdida, por isso as contrações mudaram. Eu estava no expulsivo! Zeza  junto com a Juliana me apoiavam e encorajavam. Soube que Ric estava lá, porque ele as vezes falava algo, se não nem ia me lembrar dele ali, rs (O Homem de Vidro). Mas ele já estava filmando e fotografando tudinho! Fui para a bola, depois sentei na banqueta de parto, e ali percebi que Joaquim estava descendo. As contrações eram muito intensas, mas eu vocalizava, não tinha como não faze-lo. Decidi ir para a piscina e lá fiquei.


Joaquim estava descendo...

Água, ótimo para diminuir o desconforto!

Cada contração era mais um pouco perto do meu filho. Nisso já estávamos com o Sol raiando, trazendo boas novas. Meus filhos acordaram, foram me ver e ficaram quietinhos na sala assistindo TV, aguardando o maninho chegar. E depois de mais ou menos 1 hora, coloco a mão e sinto os cabelos do Kim... Não acreditei, ele realmente estava chegando. Meu marido já estava na piscina me segurando por trás. Juliana ao meu lado segurando minha mão! Aquela mão...como me marcou, como me fortaleceu a energia da Ju naquele momento. Me lembro que em um momento ela soltou minha mão e eu imediatamente a chamei de volta, era como se uma conexão tivesse se desfeito, como se eu recebesse energia através das mãos da minha doula. Foi muito interessante sentir isso. E tenho certeza que nossas ancestrais estavam através dela me dando a energia que tanto precisava!

As contrações que vinham agora eram poderosas, fortes, doloridas, e eu era só um instrumento de passagem do meu bebê, força eu nem fazia, era somente o poder das contrações ali. Senti a cabeça coroando, aos poucos abrindo passagem, a ardência era grande, até que a cabeça saiu... Nem acreditei! Momentos depois mais uma contração poderosa, e pensei “será que eu serei boa mãe para esta criança?” e ai sai o corpinho do Kim com força para a água, direto para as mãos da minha parteira querida. Agarrei minha cria não acreditando que ele estava ali, nos meus braços, dando um chorinho gostoso. A emoção era grande, Bê e Fifi vieram conhecer o maninho, deslumbrados! Escuto meu marido e doula chorando, emocionados. Papai fazia uns carinhos no filhote. E ali na água ficamos um tempinho nos namorando, nos reconhecendo... Meu corpo todo vibrava, era como se eu estivesse em um mundo paralelo, perfeito, ideal! A dúvida se dissipou da minha mente, era para ser assim, para estarmos todos ali, eu era a MÃE daquela criança. Nós teríamos nossas batalhas para enfrentar, mas seria assim, juntos, com Fé e força.

Bebê coroando...
Em meus braços... Meu presentinho!

Perfeito!

Maninhos babando
Depois fui para a cama e a placenta nasceu logo em seguida. Joaquim ficou ainda um tempinho ligado a ela para depois o papai cortar o cordão, que  estava limpinho! Todo sangue estava com seu dono. Agradeci a árvore da vida por ter nutrido meu filho por 41 semanas e 1 dia. Zeza teve que dar uns pontinhos na laceração que tive. Fiquei um pouco chateada, mas depois aceitei. Depois tivemos a deliciosa surpresa, o mocinho havia nascido com 4140 gramas e 53 cm, enorme!!! Kim quis mamar depois de um tempinho e mamou bastante. Então avisamos a vovó Maria que veio correndo ver o neto recém nascido, estava babando e feliz por tudo ter dado certo.

Papai desligando Kim da placenta

Árvore da Vida

Mamando

Vovó corujando
Com tudo calmo Ric e Zeza se despediram e foram atender outro parto. A fome bateu e pedi para Ju fazer uma batida nutritiva para mim, que estava muito gostosa. Joaquim caiu no sono gostoso. Mais tarde Ju também se despede e ficamos nós 5 lá, juntinhos, o amor estava no ar embriagando a todos. Quando me senti capaz fui tomar um banho revigorante e fiquei pensando em tudo que tinha acontecido. Era real, o sonho aconteceu!

Equipe maravilhosa, fundamental!

Juliana, nossa doula amada!

Até hoje, 7 meses depois, me lembro da atmosfera da minha casa, do que senti, do que vivi! Sou grata ao Universo por ter tido a oportunidade de viver um parto pleno, respeitoso e amoroso. Desejo tudo o que vivi a todas as mulheres. Parir é lindo, transformador, embriagante. E tudo que estou vivendo hoje é fruto deste momento, e me foi dada a oportunidade de fazer transformações internas profundas, para me tornar um Ser pleno, mais feliz e mais capaz.

Nossos 3 anjos!
  
AMOR!!!!

Gratidão Roberto por estar ao meu lado, sempre tendo da minha capacidade ancestral de parir, e por me dar tanta segurança neste momento. TE AMO demais!!

Gratidão a minha mãe por me incentivar e apoiar nas dificuldades, e por acreditar na minha minha capacidade e na capacidade de todas as mulheres de parir.

Gratidão aos meus filhotes por estarem comigo na chegada do irmão e me darem tanto amor.

Gratidão a minha doula querida que sempre acreditou que minha capacidade de parir era nata e que meu filho nasceria sim em casa, do jeito que eu sonhava! Gratidão por ser esta ponte de ligação com minhas ancestrais! Te amo minha irmã!

Gratidão a Zeza pelas suas mãos e energia e Ric por ser de vidro me deixando a vontade, vocês foram essenciais para que tudo terminasse com segurança.

Gratidão à todos vocês que me ajudaram a concretizar este sonho, seja com as doações ou com as palavras de apoio e incentivo.

Quem quiser assistir a esta história, deixo o vídeo que construí com fotos tiradas pelo meu marido, pela minha doula, e com fotos e vídeo do meu obstetra de "vidro" Ricardo Jones!


terça-feira, 18 de março de 2014

Meu Parto Domiciliar Planejado!

Analu e Joaquim
Com muita alegria, compartilho com vocês do blog um vídeo que montei para mostrar a minha gestação e, o meu tão sonhado parto respeitado e amoroso. Com muito esforço e dedicação conseguimos que o financeiro não fosse um impeditivo para realizar esse sonho. Contamos com vários anjos no caminho que nos estenderam a mão, bem mais do que esperávamos que alguém o fizesse. Agradeço sempre pelo Universo ter colocado vocês no nosso caminho!
Como estou sem tempo ainda para escrever meu relato de parto, resolvi montar um vídeo simples mas que mostrasse a essência deste evento, deste rito de passagem! Curtam e compartilhem!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Vídeo de um parto prazeroso e poderoso....Lindo demais!

 Conheci a Lívia por acaso (ou não) no facebook, devido a 1 foto que achei no google, e não sabia que era dela...enfim adicionamos uma a outra. Agora ela disponibilizou seu vídeo onde mostra seu parto e o nascimento, encantador, de seu filho Thales. Como não admirar uma mulher que vai, aos poucos, se entregando ao processo de parir, se permitindo ter prazer neste momento... Vídeo inspirador para todas as mulheres...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dor do parto oferece vantagens, afirma especialista


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A dor do parto tem uma série de efeitos benéficos para a mulher e para o bebê que são anulados quando a paciente opta por dar à luz com anestesia epidural, embora a técnica seja útil e imprescindível em alguns casos.
É o que afirma Denish Walsh, obstetra e professor da Universidade de Nottingham, em artigo publicado na revista "Evidence Based Midwifery" no qual explica que a dor é um rito de transição que ajuda a regular o parto.
Segundo Walsh, além de contribuir claramente com a fisiologia do parto, ajuda a fortalecer o vínculo entre a mãe e o filho e prepara a mulher para as responsabilidades da maternidade.
Sem menosprezar o valor da anestesia epidural, que pode ser fundamental em alguns casos, o professor aponta que seu uso aumentou muito nos últimos 20 anos, apesar da disponibilidade de outras alternativas menos invasivas contra a dor.
Entre as vantagens de optar por um parto natural, além de razões médicas, está o prazer desse rito fisiológico que culmina com o nascimento do bebê, junto ao fato de que a própria dor induz à liberação de endorfinas, que dão uma sensação de euforia e bem-estar, destaca o especialista.
Walsh afirma que alguns estudos demonstraram que a anestesia epidural aumenta a probabilidade de ter que induzir as contrações com tratamentos hormonais e é mais frequente o uso de fórceps para ajudar a saída do bebê.
No Reino Unido, o uso da anestesia aumentou 17%, entre 1989 e 1990, e 33%, de 2007 para 2008.
O professor recomenda ao Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) outras alternativas de alívio à dor como ioga, massagem e tratamentos em piscinas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fisiologia: Parto na água

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Popularizado pelo médico francês Michel Odent na década de 60, o parto na água foi, inicialmente, descrito como uma forma alternativa de controlo da dor durante o trabalho de parto. A imersão em água à temperatura do corpo ajuda a reduzir o nível de adrenalina da mulher e estimula a libertação de ocitocina, a hormona-chave do parto. Esta resposta fisiológica leva a uma diminuição da intensidade da dor, ao mesmo tempo que facilita a dilatação. Bem-estar, paz interior e maior controlo da situação são os benefícios descritos pela maior parte das mulheres que experimentam esta forma de dar à luz.

Vários estudos revelam que a utilização da água no nascimento permite reduzir o número de cesarianas, induções de parto, pedidos de epidural e o uso de fórceps ou ventosas. Um trabalho publicado em Janeiro de 2004 no conceituado British Medical Journal (BMJ), que comparou partos dentro e fora de água, concluía isto mesmo e acrescentava que a imersão em água facilita a dilatação inclusivamente nos primeiros partos.

Embora nunca tenha sido esse o objectivo da introdução das piscinas de parto nos hospitais, ocasionalmente, os bebés podem nascer debaixo de água. Para a comunidade médica, este é o ponto mais polémico do parto em meio aquático.

Alguns investigadores não se cansam de referir os potenciais riscos para os bebés. Mesmo depois da publicação de um importante estudo em 1999 no BMJ, que analisou todos os partos na água ocorridos no Reino Unido entre 1994 e 1996. De acordo com os investigadores, em gravidezes sem problemas, os riscos de nascer debaixo de água são semelhantes aos riscos de nascer fora dela. Há, no entanto, vários trabalhos publicados na literatura médica que alertam para possíveis perigos: aspiração da água, danos neurológicos, ruptura do cordão umbilical e pneumonia.

Um desses estudos, divulgado recentemente também no BMJ, motivou um artigo no The Times particularmente crítico do parto aquático. O texto referia-se ao caso de um bebé que teve de ser internado numa unidade de cuidados intensivos, após ter nascido debaixo de água, com problemas respiratórios. Thomas Stuttaford, o autor do artigo, médico, critica severamente os apologistas do parto na água, afirmando que esta forma de nascer coloca sérios riscos à saúde do bebé e que o «sonho naturista» da mãe não deve ser concretizado à custa do futuro do bebé. Stuttaford entende que o nascimento na água é «uma moda», defendida apenas por quem procura um «parto "natural"». Termina, afirmando que as baleias são os únicos mamíferos concebidos para darem à luz dentro de água.

INVESTIGAÇÃO, PRECISA-SE
A experiência das parteiras do St. George's Hospital e do Royal Free Hospital, em Londres, vai noutro sentido. A PAIS&Filhos visitou estes dois hospitais públicos britânicos, onde o parto na agua é uma possibilidade desde que o governo decretou em 1992 que esta deveria ser uma opção em todas as unidades de saúde onde fosse praticável. Katie Pickett e Amanda Mansfield já ajudaram muitos bebés a nascer debaixo de água e não têm dúvidas de que os riscos para o recém-nascido são semelhantes aos do parto fora de água. Num comentário ao estudo do BMJ divulgado no The Times, Elizabeth Cluett, da escola de parteiras da Universidade de Southampton, partilha da mesma opinião e critica o alarmismo causado pelo trabalho centrado num único caso. Cluett apela a uma maior investigação sobre a matéria.

As parteiras referem, contudo, que, apesar de a imersão em água durante o trabalho de parto ser uma opção muito popular no Reino Unido, o número de mulheres que acaba por ter os filhos na piscina de parto é reduzido. «Muitas mulheres sentem necessidade de sair da água para a expulsão do bebé. Precisam de terra firme para poderem fazer força. É uma decisão delas e não nossa», explica Katie Pickett. Atitude que reflecte a forma como estas parteiras encaram o nascimento: a mulher decide.

A REALIDADE INGLESA
Mais de metade das maternidades públicas britânicas têm piscinas de parto. O número de mulheres que as utilizam para trabalho de parto varia entre 15 e 60 por cento, sendo que apenas 0,6 por cento dos nascimentos do Reino Unido acabam por acontecer debaixo de água. Cada hospital tem a sua contabilidade. No Royal Free, explica Amanda Mansfield, 27 por cento das parturientes usam a piscina de parto e 15 por cento dão à luz dentro de água. Mas o parto aquático é apenas uma das concretizações de uma outra forma de assistir o nascimento, assente na ideia base que um parto de baixo risco deve envolver o menor número possível de pessoas e cuidados médicos. A ideia de desmedicalizar o acto de nascer parte do pressuposto de que este é um acontecimento para o qual o corpo da mulher está preparado. Katie Pickett resume: «Quanto mais intervenção houver durante um parto, maiores são as probabilidades de que algo corra mal.»


A parteira, que apenas assiste nascimentos em casa, outra das opções do sistema de saúde público inglês, que premeia os hospitais que estimulem um aumento dos partos normais e em casa, defende algumas regras de ouro: não apressar o parto, não pressionar a mulher, não interferir. «A minha função é simplesmente estar lá. Por exemplo, não faz sentido mandar uma mulher fazer força. O corpo dela está preparado para lhe dar essa indicação.» Outro dos mandamentos da parteira é o de não interferir na posição que a mulher escolhe para dar à luz. Na maior parte dos casos, acrescenta Katie Pickett, estar deitada, a posição adoptada nas maternidades comuns, não é a que as mulheres, instintivamente, preferem. É por estas razões que Katie Pickett diz que assistir um nascimento é «uma arte».

PORTUGAL NÃO SABE NADAR
Há muitos anos que os benefícios da utilização da água durante o parto são bem conhecidos da moderna obstetrícia, mas em Portugal não existe esta opção. Falta conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, condições logísticas para os hospitais poderem oferecer esta técnica. «Não temos espaço», diz Ester Casal, obstetra responsável pelo bloco de partos do Hospital Garcia de Orta, um dos maiores do país: «Já pensámos no parto aquático, mas não temos logística.» Opinião, que nem todos os técnicos subscrevem. Vítor Varela, presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), recusa aquela atitude pessimista. «Não há condições nos hospitais?! Criam-se. Tem de haver inovação e adaptabilidade na obstetrícia.»

O enfermeiro tece críticas ao modelo de prestação de cuidados português e defende mudanças ao nível da abordagem da gravidez e parto: «Em Portugal, não se olha para o parto como um acto fisiológico, olha-se sim do ponto de vista médico.» Com eventuais riscos à partida e constante necessidade de intervenção. «É um modelo que está esgotado, todas as associações internacionais ligadas à obstetrícia defendem a desmedicalização do parto», sublinha Vítor Varela.

A utilização da água, em recipientes adequados, é uma forma de favorecer o parto normal e fisiológico, diz o enfermeiro. Deve, por isso, ser incentivada. Mas para lá chegar, «é preciso mudar a mentalidade dos profissionais que trabalham com as mulheres». Segundo Vítor Varela, há enfermeiros obstetras dispostos a avançar com o parto na água em Portugal, «até porque essa é uma área que faz parte do nosso campo de trabalho.»

PARA SABER MAIS
Pode simplesmente colocar a expressão «parto na água» (ou «water birth», se quiser alargar o campo de procura) num motor de busca (Google, de preferência) ou navegar nos sites que aqui lhe indicamos. O importante é procurar fontes fidedignas de informação.

www.rcm.org.uk
www.rgoc.org.uk
www.activebirthcentre.com
www.sheilakitzinger.com
www.waterbirth.org
www.birthchoiceuk.com
www.midirs.org
www.amigasdoparto.com.br 
www.michelodent.com



FONTE
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