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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parto de Lotus, você já pensou sobre isso? - por Gisele Leal

Lotus Birth
Há pouco mais de um ano, no curso de Parto Ativo que fiz com a Janet Balaskas, tive o prazer de conhecer um pouquinho sobre o parto de Lotus. A princípio, me pareceu um pouco bizarro, surreal, mas depois fez total sentido pra mim.
No Parto de Lotus, o bebê nasce, a placenta nasce e o cordão não é cortado. A placenta permanece ligada ao bebê através do cordão, até que este se solte sozinho, naturalmente.
O Parto de Lotus é uma prática muito comum em algumas culturas, principalmente indígenas onde o “fazer parte de um todo” é muito significativo, diferente de nossa cultura, onde a individualidade, a privacidade, é um fator marcante. Se pararmos para refletir como a maioria de nós nasceu (sob o efeito de medicamentos, ocitocina sintética, anestesia, isolados de nossas mães e privados da necessidade mamífera básica de acesso ao seio materno e do contato pele-a-pele) talvez seja mais fácil entender as dificuldades que temos em nossas relações interpessoais.
Os benefícios de um Parto de Lotus são melhor abordados em culturas que procuram entender o ser humano como parte de um todo, sob uma visão holística, menos tecnocrática. Países como a India, China e Egito. Conceitos ausentes na ciência biomédica ocidental.
No Parto de Lotus há um entendimento do bebê e placenta como uma única unidade, sendo a placenta um órgão essencial, assim como o coração ou o fígado cujo funcionamento é essencial para a vida. No Parto de Lotus, a relação bebê-placenta é muito forte, tanto que a mãe dá a luz ao bebê e à placenta.
“Não há razões médicas sustentáveis ​​para cortar o cordão umbilical separando a unidade biológica que concebeu, cresceu e nasceram juntos. O Parto de Lotus garante que o bebê recebe o quociente completo de oxigênio no sangue altamente nutritivo que está no cordão. A criança obtém 40 a 60 ml de sangue ‘extra’ a partir da placenta se o cordão não estiver vinculado até pulsações cessar. A perda de 30 mL de sangue para o recém-nascido é equivalente à perda de 600 ml para um adulto. A prática comum de corte imediato do cordão antes das pulsações cessarem, possivelmente, priva o recém-nascido de 60 ml de sangue, o equivalente a um 1200ml em um adulto. Esta é uma explicação provável do estranho fenômeno de perda de peso que a maioria dos recém-nascidos parecem suportar. O novo organismo é colocado imediatamente sob estresse para reproduzir o sangue que lhe foi negado.”   Dra. Sarah Bucley (www.sarahjbuckley.com/articles/leaving-well-alone.htm www.cordclamp.com.)
Janet nos explicou, que na Inglaterra muitas instituições de saúde, já estão preparadas para oferecer este atendimento aos casais que assim desejam, e que mesmo aqueles que não desejam o Parto de Lotus, são orientados a deixar o cordão ligado por pelo menos 3 horas após o nascimento. Ela explicou que alguns estudos demonstram os benefícios de manter a placenta ligada ao bebê através do cordão, como:
- transfusão total do sangue que está na placenta para o bebê, diminuindo os  riscos de anemia na primeira infância;
- o bebê recebe toda vitamina K presente na placenta, o que em tese, diminui a necessidade da aplicação da vitamina K no bebê após o nascimento (a vitamina K é  importante para evitar hemorragia no recém-nascido);
- o bebê recebe muito mais células tronco (presentes na placenta e no cordão umbilical);
- o bebê recebe mais células de defesa presente na placenta, aumentando sua imunidade.
- aumenta o sucesso na formação do vínculo entre mãe e bebê.
- encoraja a mãe a ficar mais  quieta e próxima ao bebê durante os primeiros  dias;
- como o cordão não é cortado, não há risco de infecção;
Você deve estar se perguntando: e o cheiro da placenta…? Não apodrece?
Existem técnicas para se “cuidar” da placenta até que ela seque. Em geral, o cordão solta em 3 dias (diferente de quando é cortado). No site LotusBirht.net encontrei a informação de que quando um cordão é cortado imediatamente após o nascimento, leva em média 9,56 dias para o “coto” secar e cair. Quando é cortado tardiamente (após parar de pulsar), leva em média 7,16 dias para secar e cair. E quando não é cortado, como no Parto de Lotus, leva em média 3,75 dias para secar e soltar.
E o bebê?
“Esses bebês que nascem de um Parto de Lotus são diferentes, são mais “inteiros”,  mais parecidos como bebês costumavam ser. Os bebês de hoje são frequentemente muito preocupados, eles mostram sinais de estresse. Isto é preocupante… Que o estresse esteja aumentando, mesmo em bebês. O exemplo mais marcante de bem-estar que já vi em um bebê nascido de um parto de lótus era um bebê cujo pai havia morrido durante a gravidez. Quando isso acontece, pode-se esperar que a criança vai manifestar sintomas de estresse relacionado ao estado emocional das mães. Porém, esta criança nascida de um parto de lotus estava completamente livre do trauma residual que estes casos costumam deixar. Era muito calmo e centrado. Observando os bebês que atendo, o Parto de Lotus é notoriamente mais benéfico.“ Helma Bak, médica nascida na Holanda, que pratica a medicina antroposófica e homeopatia na Austrália.
Claro que isso é só a pontinha do iceberg. Existem muito mais informações sobre os benefícios do Parto de Lotus e sobre os cuidados  com  a placenta. Vale a pena dar uma lida.
Eu não sei se conseguirei, com duas crianças pequenas, esperar que o cordão se solte naturalmente. Mas com certeza, irei esperar algumas horas após o nascimento do bebê para cortar o cordão.
E você? O que você achou? Conte pra gente.
Mais informações em:
www.lotusbirht.net

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Parto Domiciliar Planejado: algumas coisas que talvez você não saiba - por Ana Cristina Duarte

ANA CRISTINA DUARTE, OBSTETRIZ PELA USP E INSTRUTORA EM CAPACITAÇÃO DE DOULAS, É COORDENADORA DO GRUPO DE APOIO À MATERNIDADE ATIVA (GAMA).


google imagem
Vejo muita gente dando palpite sobre parto domiciliar, especialmente profissionais de saúde, onde demonstram claramente que não fazem a menor ideia do que estão falando. Ouviram um pássaro cantar e já vão falando que é o Galo da Serra, sem nunca terem nem ouvido esse canto, muito menos visto a espécie. Achei por bem enumerar alguns fatos sobre o parto domiciliar planejado (PDP) que podem derrubar alguns mitos.


1) Qual gestante pode ter um PDP?
Gestantes saudáveis, com pré natal sem intercorrências, com um bebê único, posicionado, com mais de 37 semanas, com trabalho de parto espontâneo (não induzido)

2) Até onde vai o PDP? Ou até quando a gestante não pode mais mudar de ideia?
Vai até onde estiver seguro e sem intercorrência ou sem suspeita de possível intercorrência. Batimentos cardíacos fetais normais, mãe em boas condições. A qualquer sinal de possível intercorrência, a opção de retaguarda será acionada e o parto passa a ser hospitalar. A gestante pode mudar de ideia a qualquer momento e ir para o hospital para analgesia ou o que mais quiser.

3) Como se sabe que está tudo bem?
Através dos controles periódicos dos batimentos cardíacos do bebê e dos sinais vitais maternos, o que ocorre durante todo o trabalho de parto.

4) Como esteriliza a casa ou o quarto para o parto?
Isso não existe, nem no hospital, nem em casa. O que se faz no hospital é a limpeza da sala entre um parto e outro com materiais de limpeza, mas a única coisa que é esterilizada no hospital é o que entra em contato com o parto em sim, com as cavidades, cortes, etc. Em casa é a mesma coisa, o que for entrar em contato com "aberturas corporais" estará esterilizado. A questão que preocupa na contaminação hospitalar é o contato da gestante com virus e bactérias que causam doenças e que sempre estão presentes em ambientes hospitalares. Em casa essas bactérias não existem, não houve cirurgias anteriores, tratamento de doentes, nada disso. 

5) Mas e o pós-parto? Como fica a bagunça do parto? Quem cuida do bebê?
Após parto a equipe limpa toda a casa e elimina todos os vestígios do atendimento, materiais com sangue, restos, etc.. Com relação ao bebê, assim como no hospital, após ser examinado e vestido, ele fica sob cuidados dos pais em alojamento conjunto, o mesmo ocorre em casa. Os profissionais farão as visitas pós-parto e estão de prontidão para uma visita imediata durante toda a semana posterior ao parto.

6) Quem é o profissional que atende esses PDP?
Enfermeiras obstetras, obstetrizes e médicos podem atender esses partos. Doulas não podem atender partos, elas podem dar assistência emocional, apoio, mas não atendem os partos. As equipes são compostas pelo menos de um profissional desses anterioremente citados, podendo chegar a três profissionais, sendo que todos são capacitados para o atendimento de emergências obstétricas e reanimação neonatal

7) Quais procedimentos podem ser feitos num PDP?
Nenhum procedimento. Para acelerar, induzir, usar fórceps, etc, a gestante é levada ao hospital.

8) O que esses médicos/enfermeiras/obstetrizes levam para o atendimento em casa?
Todo o material estéril (agulhas, seringas, campo estéril para sutura, agulha de sutura, anestésico local, material de sutura, luvas, antisséptico, etc).
Todo o material de reanimação neonatal (tapete aquecido, ambu, máscara, cilindro de oxigênio, material de aspiração, material de transferência, etc).
Todo o material para emergência pós-parto materna (soro, material de punção venosa, drogas anti-hemorrágicas, etc).

9) Tem ambulância na porta?
Não, nenhum país que tem atendimento de parto domiciliar tem ambulância na porta. Essa é apenas mais uma lenda urbana sobre parto em casa.

10) E se acontecer alguma coisa?
Vamos separar o que seria esse "alguma coisa", para facilitar.

a) Com o bebê: se precisar de reanimação, reanima-se em casa, como numa sala de parto qualquer, com ventilação positiva. São as mesmas técnicas e materiais. Mas e se for tão grave que precisar adrenalina? Bebês saudáveis, de pré natal saudável, em partos naturais de termo sem intervenção não necessitam adrenalina. Olhe retrospectivamente para todos os casos de adrenalina e você verá que eram partos prematuros, ou bebês doentes, ou partos absurdamente medicalizados. Se ele tiver alguma malformação inesperada e grave, ele será mantido sob ventilação e transferido para um hospital com UTI neonatal, tal qual se faz em qualquer hospital ou cidade onde não existe UTI neonatal.

b) Com o parto: se for parto pélvico de surpresa, deixa-se nascer com as técnicas normais de parto pélvico; se for distócia de ombros, resolve-se igualmente com as mesmas manobras hospitalares; se precisa de fórceps é porque já era um parto complicado, transfere-se ao longo do parto; se os batimentos não forem bons, transfere-se; se houver mecônio em baixa quantidade e batimentos normais, aguarda-se o parto; se houver muito mecônio ou batimentos anormais, transfere-se.

c) No pós parto: se houver hemorragia, corrige-se com ocitocina, ergotrate e reposição de líquido; placenta retida, transfere-se para remoção no hospital; atonia uterina não é uma entidade de partos normais sem medicalização, mas em tese tranfere-se também. Se houver laceração, os três profissionais têm autorização, técnica e material para suturar sob anestesia local em casa.

11) E dá tempo de resolver?
Os estudos internacionais sobre PDP com equipe experiente mostram que o risco de mortalidade/morbidade não muda em casa ou no hospital e que o PDP é uma opção segura para gestantes de baixo risco. Isso não quer dizer que nada pode acontecer. Mesmo em países com baixíssima taxa de mortalidade, cerca de 1 a cada 500 bebês não viverá fora do útero. E isso poderá acontecer em casa, no hospital, no Brasil, na Dinamarca, nos Estados Unidos.

12) Mas estar no hospital não faz tudo ser bem mais rápido?
Na prática e em geral não. Tirando raras exceções, uma cesariana "de emergência" vai ocorrer num prazo aproximado de 30 minutos, às vezes até 1 hora, às vezes mais. A maioria dos hospitais brasileiros não possui anestesista de plantão, ou não há um disponível e livre o dia todo, nem mesmo uma sala de cesariana pronta e reservada. A idéia de que o hospital é um lugar onde tudo está pronto e disponível é irreal e mora mais no imaginário popular do que no bloco cirúrgico.

Mais informações sobre PDP:


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Entrevista: Parto em casa- O Brasil das Gerais





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