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sábado, 9 de junho de 2012

O que é sofrimento fetal??


O sofrimento fetal é comumente utilizado como justificativa para cesárea, e certamente o termo é aterrorizante, que mãe pode ficar tranqüila com a suposição de que seu bebê se encontra em sofrimento? Por isso, e porque a maioria dos bebês com esse diagnóstico de sofrimento fetal nascem com bons escores de Apgar e com pH normal no sangue do cordão (o único exame que comprova se EFETIVAMENTE houve hipóxia, ou seja, redução do suprimento sangüíneo reduzindo a oxigenação fetal), o próprio Colégio Americano de Ginecologistas e Obstetras recomenda que se use o termo "freqüência cardíaca fetal não-tranquilizadora" (tudo bem que realmente não tranquiliza muito, mas ainda é melhor que "sofrimento") para se referir a determinadas alterações da freqüência cardíaca fetal que podem estar associadas com o comprometimento da oxigenação do bebê.

A freqüência cardíaca fetal (FCF) oscila NORMALMENTE entre 110 e 160 batimentos por minuto (bpm). Essa é a freqüência BASAL, porque tanto a movimentação fetal como as contrações podem acarretar ACELERAÇÕES da FCF, que são achados fisiológicos e tranquilizadores. ÓTIMO o bebê acelerar os batimentos nessas circunstâncias. Essas acelerações são consideradas SATISFATÓRIAS quando demoram pelo menos 15 segundos e são da magnitude de pelo menos 15bpm. CUIDADO para não achar que o retorno à FCF basal é uma desaceleração, por isso a ausculta deve ser criteriosa, antes, durante e depois da contração, registrando-se a ocorrência ou não de movimentos fetais.

A DESACELERAÇÃO é quando, ao invés de subir, os batimentos caem durante ou depois de uma contração ou seguindo-se aos movimentos. Uma queda moderada durante uma contração em franco trabalho de parto ou com bolsa rota não é um achado não-tranquilizador, pode acontecer naturalmente pela compressão da cabeça fetal. Leves/moderadas desacelerações seguindo-se aos movimentos podem sugerir circular de cordão. Profundas desacelerações DEPOIS das contrações, essas sim, podem ser patológicas, mas há que se checar se não estão associadas com o decúbito DORSAL, porque nessa posição há compressão aorto-cava e redução da oxigenação fetal, mas é um achado transitório que se reverte com a mudança para o decúbito lateral esquerdo. Se mesmo com a mudança de decúbito persiste o padrão de desacelerações, a monitorização com carditocografia está indicada, porque há que se avaliar se o achado se associa com bradicardia ou redução da variabilidade da FCF. Desacelerações tardias e graves freqüentes em associação com bradicardia ou redução da variabilidade representam o padrão de FCF não-tranquilizador, que pode, de acordo com a fase do trabalho de parto e as características do líquido amniótico, traduzir realmente má oxigenação fetal e indicar a cesariana (ou, em período expulsivo, um fórceps de alívio).

BRADICARDIA é a freqüência cardiaca fetal abaixo de 110bpm, isolada não tem valor prognóstico, se associada a desacelerações tardias indica possibilidade de hipoxia fetal.

TAQUICARDIA é a freqüência cardíaca fetal acima de 160bpm (cuidado para distinguir das acelerações), MANTIDA. Geralmente fisiológica, pode todavia associar-se a febre materna ou infecção fetal. Também se deve avaliar se há associação com outras alterações da freqüência cardíaca fetal.

Enfim, devem ser considerados vários parâmetros, porque o diagnóstico de "sofrimento fetal" geralmente é feito de modo inadequado. Uma ausculta cuidadosa permite o diagnóstico diferencial dos diferentes padrões de FCF e certamente, com cuidados como evitar hipotensão e adoção do decúbito lateral, reduzem-se os falso-positivos tão freqüentes quando se asculta o bebê com a parturiente em decúbito dorsal.


*Fonte: Parir é Nascer
Retirado daqui

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mecônio: Sinal de sofrimento fetal?




Muitas mães tem pânico em ouvir falar de mecônio. Mecônio é o cocô verde que o bebê libera nos primeiros dias de vida, e algumas vezes na barriga da mãe. Quem nunca ouviu uma vizinha contando que o bebê da sobrinha engoliu mecônio, que o bebê da neta aspirou mecônio, que o médico marcou a cesárea porque o bebê tinha feito cocô na barriga…
Vamos desvendar os mitos agora!
Há dois motivos para eliminação de mecônio durante a gravidez: MATURIDADE FETAL, porque o intestino está funcionando a contento, o que é um bom sinal, e SOFRIMENTO FETAL, porque quando o feto está mal oxigenado aumenta a contratilidade dos intestinos e relaxam-se os esfíncteres (como quando estamos em uma situação de estresse).
Em um feto bem oxigenado, que elimina mecônio apenas porque está maduro, sua presença não traz maiores (aliás, nem menores) problemas. Esse feto maduríssimo e pronto para evacuar a cada instante também urina dentro da barriga. A urina é a principal fonte de produção do líquido amniótico, e quanto mais líquido mais fácil fica de o mecônio se diluir. Um bom volume de líquido amniótico indica que os rins fetais estão funcionando a contento, bem perfundidos (ou seja, o sangue chega lá e irriga bem os rins). Esse mecônio diluído dá o aspecto que chamamos de “tinto de mecônio” ou “mecônio fluido”. Aí, também, sem repercussões desfavoráveis. Evidências ultra-sonográficas sugerem que o feto pode evacuar algumas vezes dentro do útero e, ao nascimento, encontrar-se líquido CLARO,
Se o líquido amniótico está diminuído, não há como diluir o mecônio, aí temos o MECÔNIO ESPESSO, podendo mesmo assumir o aspecto característico de papa de ervilhas”. A preocupação nesse caso é com o motivo pelo qual o mecônio está espesso, porque o líquido amniótico pode estar diminuído fisiologicamente no final da gravidez e nas gestações pós-termo (que ultrapassam 42 semanas) ou por insuficiência placentária, reduzindo o fluxo sanguíneo para os rins fetais.
O risco de aspiração do mecônio e desenvolvimento de um quadro de pneumonite grave (Síndrome de Aspiração Meconial) é a maior preocupação nesses casos de mecônio espesso. Entretanto, o quadro só ocorre em bebês em sofrimento, que fazem movimentos de ‘gasping’ dentro do útero e, ao nascer, não têm os mecanismos fisiológicos para ‘clarear’ o mecônio.
Bebês hígidos, saudáveis, podem até aspirar mecônio mas os mecanismos pulmonares normais entram em ação para eliminar esse mecônio.
Concluímos, portanto, que o fundamental é distinguir se o bebê se encontra ou não em sofrimento. A ausculta dos batimentos cardíacos fetais (BCF) continua sendo a forma não-invasiva mais eficiente de se monitorizar o bem-estar fetal, podendo ser realizada de forma intermitente (com o sonar Doppler) ou contínua (pela cardiotocografia). Uma boa ausculta fetal durante o trabalho de parto é tranquilizadora. Se há alteração dos batimentos e a freqüência cardíaca fetal assume um padrão “não-tranquilizador”, está indicada a antecipação do parto, que pode ser por cesariana ou, se o evento ocorre no período expulsivo, através de fórceps ou vácuo-extração.
Alguns estudos apontam para um possível efeito benéfico da amnioinfusão(instilação de soro na cavidade amniótica por via cervical), no sentido de prevenir as desacelerações freqüentes nos casos de oligo-hidrâmnio, porém ainda não há evidências suficientes para apoiar sua indicação rotineira. De acordo com a revisão sistemática da Cochrane, o procedimento pode levar a redução das taxas de cesariana por ‘sofrimento fetal’.
Esse texto foi escrito pela Dra. Melania Amorim, Obstetra renomada e completamente a favor do Parto Humanizado.
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