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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Cesarianas no Brasil: uma preferência das gestantes ou dos médicos?


Muito bom o artigo. Leiam, se informem sempre, questionem os seus obstetras!

Mais Você- Globo
Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore
Em geral, o parto deveria ser um evento essencialmente fisiológico, e segundo a Organização Mundial de Saúde não existem motivos que justifiquem uma taxa de cesariana superior a 15,0% em nenhum lugar do mundo. No entanto, essa taxa tem crescido em muitos países nos últimos 30 anos e o Brasil já foi conhecido por ter a maior taxa de cesáreas do mundo. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2010, 52% dos partos no país foram cirúrgicos.
Na rede privada o índice nacional chega a 82%, e na rede pública, onde ocorre ¾ de todos os partos, a 37%. O Ministério da Saúde do Brasil considera que as elevadas taxas de cesarianas são fatores determinantes da morbimortalidade materna e perinatal (Brasil, 2001). Além disso, a cesariana tem se associado a condições indesejáveis como o retardo na recuperação puerperal, tempo aumentado de internação, início tardio da amamentação e elevação de gastos para o sistema de saúde.

Existem fatores demográficos, socioeconômicos e relacionados ao risco gestacional, além do acesso e uso do pré-natal, que podem estar associados ao tipo de parto das mulheres brasileiras. Dentre eles se destacam a idade, a cor da pele, o estado nutricional, a diabetes, a hipertensão, a escolaridade, a situação de domicílio, o local do pré-natal e do parto. Esses fatores se dispõem em diferentes níveis de influência e apresentam, possivelmente, algum grau de interação capaz de determinar a via de nascimento do bebê.
No caso do parto cesáreo, a decisão é definida por um conjunto de ‘causas’ e está relacionada a uma cadeia de assistência ao parto que envolve vários atores que influenciam todo o processo. São os médicos, seguradoras, hospitais, governo, por meio de políticas de saúde, e a própria gestante, quando omite sua opinião ou quando interfere na decisão. Isso dificulta a identificação da motivação de cada ator e seu efeito no desfecho (Patah & Malik, 2011).

A escolha do tipo de parto é motivo de grande discussão. A maioria das mulheres mostra uma preferência por partos vaginais, mas existe uma crença generalizada de que as cesarianas são preferíveis por serem menos dolorosas (Victora et al. 2011). No entanto, a maioria das gestantes, não participa dessa discussão, sendo simplesmente informada sobre a decisão médica final. A sua aceitação ou não em relação à conduta médica, e a associação entre a sua aceitação e os possíveis resultados perinatais, não são levados em consideração na grande maioria das vezes (Meller & Schäfer, 2011).
Além disso, há uma desvinculação entre médico e paciente, que ocorre porque no serviço público não é o mesmo profissional que faz o pré-natal e o parto. Essa desconexão resulta em falta de informações sobre a gestação atual e as anteriores no momento do parto, e o parto cesáreo acaba sendo uma opção onde o obstetra ‘tem maior controle’ sob a situação (Patah & Malik, 2011), até porque em alguns casos nem pode deixar que a gestante que entrou em trabalho de parto em seu plantão termine no plantão seguinte.

Especialistas defendem que a cesariana tem indicações clínicas precisas como eclampsia ou nos casos da mãe sensibilizada pelo tipo sanguíneo (fator RH) do bebê. Entretanto, além da falta de consideração em relação à opinião da gestante, é possível encontrar o oposto a essa situação, onde mulheres que nem sequer entraram em trabalho de parto e já negociam a data do parto com o obstetra, marcando a cesárea previamente.
Essa situação é comum e ocorre possivelmente devido a uma predisposição intervencionista dos médicos, que não seguem as recomendações para o parto cesáreo. Além disso, alguns agem de acordo com a sua própria conveniência, já que é possível constatar que cesarianas são realizadas com mais frequência em horários diurnos e em dias úteis (Nagahama & Santiago, 2011).

Segundo Fernanda Meller e Antônio Schäfer, da Universidade Federal de Pelotas, das mulheres brasileiras com idade entre 15 e 49 anos avaliadas pela Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (2006), a maioria (57,1%) teve parto normal. Entre as que fizeram o parto cesáreo, prevaleceram as mulheres mais velhas (acima de 30 anos), as obesas, e as de cor da pele branca.

Apesar de ser forte a associação entre as características biológicas e o parto cesáreo, alguns determinantes sociais se revelam como uma influência importante sobre nesse desfecho. No que diz respeito à escolaridade, por exemplo, enquanto algumas pesquisas não encontraram associação entre o nível educacional e o tipo de parto (D’orsi et al., 2006; Silveira et al., 2004), outras têm relatado maior ocorrência de partos por cesariana entre mulheres com melhor nível educacional e entre aquelas de grupos socioeconômicos mais privilegiados (Freitas et al., 2005; Althabe & Belizan, 2006). Nas mulheres estudadas pelos pesquisadores da Universidade de Pelotas não foi evidenciada diferença significativa entre tipo de parto e escolaridade.

Segundo o pesquisador Paulo Freitas, da Universidade Federal de Santa Catarina, uma estratégia frequentemente utilizada pelas mulheres com melhores condições socioeconômicas para conseguir cesariana no setor público é negociá-la durante o pré-natal conveniado ou privado. Nesse sentido, a escolaridade parece aumentar a chance de cesariana, não apenas pela diferenciação econômica, mas também pela maior capacidade de negociação com o obstetra (Freitas & Behague, 1995).
Ao contrário das gestantes com acesso a convênios médicos ou serviços particulares, aquelas que realizam o pré-natal pelo SUS frequentemente não têm a chance de escolher o médico que irá assisti-las e, provavelmente, não terão poder de negociação sobre o tipo de parto de sua preferência ou a forma de atendimento que desejam (Patah & Malik, 2011). Sendo assim, de maneira geral, as mulheres que não interferem na decisão sobre o tipo de parto, ou simplesmente não são consultadas sobre sua opinião, são oriundas de classe social baixa e possuem menor nível de escolaridade.

Por outro lado, os pesquisadores de Pelotas (Meller e Schäfer) apontam que o tipo e qualidade de informação e sugestões transmitidas pelos serviços de saúde durante o pré-natal podem influenciar na via de nascimento do bebê. Nesse caso, a realização de consultas pré-natais aumentaria a probabilidade para a opção pela cesariana. Os autores revelaram que houve uma maior prevalência de parto cesariano entre as mulheres que utilizaram o serviço particular para a realização da consulta pré-natal, indicando uma possível influência dos profissionais de saúde dos serviços privados para a realização desse tipo de parto.
Além disso, entre as mulheres que realizaram o parto em hospital particular foi observado maior prevalência de parto cesáreo. Nesse caso, é interessante notar que, possivelmente, essas mulheres que utilizaram o serviço particular para o pré-natal e realizaram o parto em hospital particular foram as mais escolarizadas e de maior renda, o que reduziria a potencial influência do serviço e dos profissionais de saúde do setor privado na decisão do parto cesáreo.

Em relação às macrorregiões, a região Sudeste foi a que apresentou maior prevalência de parto cesariano (51,7%), em contrapartida, as menores taxas foram encontradas nas regiões Norte (30,8%) e Nordeste (30,9%), onde uma grande proporção dos partos são feitos por enfermeiras obstétricas. Segundo Victora e colaboradores, em apenas oito anos (2001–08), as cesarianas aumentaram de 38,0% para 48,8%, e em várias Unidades da Federação (UF) os partos cesáreos passaram a ser mais numerosos que os vaginais (Victora et al. 2011).
Para Luciano Patah e Ana Malik, da Fundação Getúlio Vargas, a cobertura de planos de saúde também é um fator relevante, pois nas regiões em que a cobertura de planos de saúde é maior, as taxas de cesárea também o são. Em relação às macrorregiões e à situação de domicílio, o estudo de Meller e Schäfer observou uma maior prevalência desse tipo de parto entre as mulheres que residiam na região Sudeste e na zona urbana do país.

Podemos considerar uma iniquidade social no cuidado em saúde o fato de que mulheres com piores condições socioeconômicas e, consequentemente, maior risco de complicações no parto tenham menor probabilidade de cesariana do que aquelas com baixo risco obstétrico, alto poder aquisitivo e maior acesso à tecnologia médica (Freitas & Behague, 1995), o que nos remete mais uma vez a lei do cuidado inverso. A cesariana é indicada com a intenção de preservar a vida da mãe e do filho em situação de risco, e não deve ser decidida em função do desejo da grávida nem de acordo com a conveniência do médico. Além disso, é preciso reduzir ainda mais as disparidades regionais, socioeconômicas e étnicas que persistem apesar do progresso alcançado, de maneira que interfiram cada vez menos na decisão sobre o tipo de parto.
-- 
Gabriela de A. Lamarca é Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutoranda em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore é Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Como falar sobre a gravidez para as crianças? - por Flor do Sul



Hoje em dia com o acesso a internet e demais meios de comunicação nossas crianças estão cada vez mais cedo aprendendo sobre diversos assuntos que anos atrás só eram tratados após a maioridade, ou eram quase sempre "deixado de lado".
Eu particularmente penso que devemos sim falar sempre a verdade para nossos filhos, claro que de uma maneira mais voltada para a idade e maturidade de cada criança.
Se você tem um filho e ainda não foi surpreendido por uma daquelas perguntas "cabeludas" que te deixam sem ar e sem resposta PREPARE-SE que em breve elas virão e depois da primeira pode ter certeza que um batalhão delas irão surgir. E não adianta dar respostas curtas e vazias, pois a curiosidade e a inteligência das crianças de hoje em dia nos deixam perplexos.
E como podemos de uma maneira lúdica, didática, carinhosa e que esteja inserido no mundo da imaginação das crianças responder como, ou de onde vem os bebês??
É bem simples! Existe no mercado bonecas grávidas que incentivam o parto normal e a Amamentação de uma maneira natural e não agressiva.
Recentemente foi exibido na novela A Vida da Gente a cena em que uma criança com aproximadamente oito anos ganha de presente de aniversário uma boneca grávida. É claro que isso chamou muita atenção, pois os mais conservadores acharam um absurdo uma criança conhecer um ato tão grandioso que é ser mãe, parir e amamentar mesmo que fantasiosamente.
Por outro lado tem as mães mais descoladas e que ficaram com uma vontade ENORME de comprar para suas filhas, e porque não para os filhos também? Quem sabe podemos estar incentivando um futuro obstetra, pediatra e acima de tudo certamente um excelente futuro pai!!
A ONG Amigas do Peito do Rio de Janeiro idealizou uma boneca grávida e que amamenta, e a Flor do Sul foi em 2004 autorizada a desenvolver um modelo próprio e hoje três diferentes modelos e com a mesma função:
Boneca Bibi: A boneca que ensina a amamentar!
A Bibi esta grávida tem seu bebê de parto normal e o amamenta de forma carinhosa.São confeccionadas artesanalmente em poliéster, têm diversas etnias a sua escolha. (cerca de 30 cm)Produzimos nas versões ruiva, loira, morena, negra, japonesa, chinesa e índia. Na versão gemelar há um custo de R$: 10,00 por bebê a mais. Os bebês acompanham as características da mamãe!
Boneca Celina: Boneca em malha de algodão (cerca de 50 cm). Dá a luz ao seu bebê por parto normal, o bebê possui cordão umbilical e é amamentado.
Boneca Júlia: Boneca em malha de algodão (cerca de 70 cm). Dá a luz ao seu bebê por parto normal.
Ideal para grupos. O bebê é maior e articulado, também mama, possui placenta e cordão umbilical que o liga a sua mãe.
Com a Júlia você pode trabalhar toda a parte da gestação, como a nutrição da mãe, as mudanças no corpo, o parto normal e a amamentação.

Quem quiser mais informações:
www.flordosul.com
flordosul@flordosul.com

sábado, 14 de janeiro de 2012

Modelo de Plano de Parto


google imagem



O Plano de Parto é uma carta, ou uma simples lista onde você relaciona tudo o que gostaria ou não gostaria que acontecesse em seu parto. Mais que um documento, é uma forma de você entrar em contato com os procedimentos normalmente relacionados com o parto e nascimento, atentando para o diálogo prévio com a equipe que irá te assistir. 
Veja aqui um exemplo de plano de parto de um casal que optou por um parto hospitalar*: 

"Estamos cientes de que o parto pode tomar diferentes rumos. Abaixo listamos nossas preferências em relação ao parto e nascimento do nosso filho, caso tudo transcorra bem. Sempre que os planos não puderem ser seguidos, gostaríamos de ser previamente avisados e consultados a respeito das alternativas.

Trabalho de parto:
-  presença de meu marido e doula.
- sem tricotomia (raspagem dos pelos pubianos) e enema (lavagem intestinal).
- sem perfusão contínua de soro e ou ocitocina
- liberdade para beber água e sucos enquanto seja tolerado.
- liberdade para caminhar e escolher a posição que quero ficar.
- liberdade para o uso ilimitado da banheira e/ou chuveiro.
- monitoramento fetal: apenas se for essencial, e não contínuo.
- analgesia: peço que não seja oferecido anestésicos ou analgésicos. Eu
  pedirei quando achar necessário.
- sem rompimento artificial de bolsa

Parto:
 - prefiro ficar de cócoras ou semi-sentada (costas apoiadas).
 - prefiro fazer força só durante as contrações, quando eu sentir vontade, em
  vez de ser guiada. Gostaria de um ambiente especialmente calmo nesta hora.
- não vou tolerar que minha barriga seja empurrada para baixo.
- episiotomia: só se for realmente necessário. Não gostaria que fosse uma
  intervenção de rotina.
- gostaria que as luzes fossem apagadas (penumbra) e o ar condicionado
  desligado na hora do nascimento. Gostaria que meu bebe nascesse em
  ambiente calmo e silencioso.
- gostaria de ter meu bebe colocado imediatamente no meu colo após o parto
  com liberdade para amamentar.
- gostaria que o pai cortasse o cordão após o mesmo ter parado de pulsar.

Após o parto:
- aguardar a expulsão espontânea da placenta, sem manobras, tração ou
  massagens. Se possível ter auxílio da amamentação.
- ter o bebê comigo o tempo todo enquanto eu estiver na sala de parto, mesmo
  para exames e avaliação.
- liberação para o apartamento o quanto antes com o bebê junto comigo. Quero
  estar ao seu lado nas primeiras horas de vida.
- alta hospitalar o quanto antes.

Cuidados com o bebê:
- administração de nitrato de prata ou antibióticos oftálmicos apenas se
  necessário e somente após o contato comigo nas primeiras horas de vida.
- administração de vitamina K oral (nos comprometemos em dar continuidade
  nas doses).
- quero fazer a amamentação sob livre demanda.
- em hipótese alguma, oferecer água glicosada, bicos ou qualquer outra coisa ao bebê.
- alojamento conjunto o tempo todo. Pedirei para levar o bebê caso esteja muito cansada ou necessite de ajuda.
- gostaria de dar o banho no meu bebê e fazer as trocas (ou eu ou meu marido).

Caso a cesárea seja necessária:
- exijo o início do trabalho de parto antes de se resolver pela cesárea.
- quero a presença da doula e de marido na sala de parto.
- anestesia: peridural, sem sedação em momento algum.
- na hora do nascimento gostaria que o campo fosse abaixado para que eu possa vê-lo nascer.
- gostaria que as luzes e ruídos fossem reduzidas e o ar condicionado desligado.
- após o nascimento, gostaria que colocassem o bebê sobre meu peito e que
  minhas mãos estejam livres para segura-lo.
- gostaria de permanecer com o bebe no contato pele a pele enquanto estiver na sala de cirurgia sendo costurada.
- também gostaria de amamentar o bebê e ter alojamento conjunto o quanto antes.      

Agradeço muito a equipe envolvida e a ajuda para tornar esse momento especial e tão importante para nós em um momento também feliz e tranqüilo como deve ser.

Muito obrigada,
Local e data,

Assinatura dos pais 

Assinatura do médico obstetra                  assinatura do pediatra


*Texto inspirado no livro "Parto Normal ou Cesárea - tudo o que as mulheres deveriam saber." , escrito por Ana Cristina Duarte e Simone Diniz, editora Unesp



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PREPARANDO O VERDADEIRO ENXOVAL: Nove meses para nutrir a alma


Meus queridos leitores, achei este texto da Cariny  muito interessante, que trás citações de autores e profissionais bárbaros. O texto e longo mas muito enriquecedor. Leiam e reflitam!

Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo

 O ser humano, como indivíduo em constante evolução que é, possui diversos mecanismos para amadurecimento, sejam eles físicos ou psíquicos. Do encantado mundo da infância, até a formação de um homem, ou uma mulher, vive-se os desafios dos tempos da escola, a enxurrada de hormônios, do círculo de afetos e desafetos, a adolescência. Além das revoluções próprias do crescimento, há os eventos protagonizados por terceiros mas que  afetam o indivíduo desde a tenra infância, como as perdas e ganhos, financeiros ou não, os lutos, as separações, as novas uniões, enfim.
De uma forma mágica, ainda fora da compreensão e entendimento do homem, o universo conspira em prol do progredir infinito,
arquitetando manobras na esfera pessoal, social, coletiva, cultural... tudo para atingir seu objetivo.
Quanto a essas ‘janelas de oportunidades’ para o crescimento pessoal, as mulheres levam vantagem, pois tem na maternidade, de uma forma geral, mas principalmente na gestação, uma grande aliada para o desenvolvimento individual. Não que o homem, sendo um novo pai, não participe desta grandiosa modificação pessoal, no entanto, este resultado virá muito mais de sua iniciativa e de seu envolvimento voluntário. Já para a mulher é tudo  mais forte e determinante: quer ela queira, quer não, a gravidez a levará feito tsunami para as profundezas de sua psiquê.
A gestação seria, assim, o grande salto de amadurecimento emocional, físico, intelectual e psíquico da mulher, coroada com um parto empoderador, dando início assim a uma maternagem ativa e feliz, propícia à formação de serem humanos saudáveis. Não se trata de um palpite, diversos estudiosos apontam a gravidez como um período de extrema sensibilidade e suscetibilidade da mulher com o intuito primordial de criar um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento inicial da vida. Pode-se citar Reich, Federico Navarro, David Boadella, Alexander Lower, Gerda Boyensen e Sanley Keleman[1].
Segundo Rachel Soifer, a mulher deseja ter a criança, o que significa aceitação da gestação; entretanto, ao mesmo tempo, surge uma rejeição à gravidez em si, causada pelo temor que sente em ser destruída. Soifer destaca que não se trata, de modo algum, de rejeição ao filho, mas de uma defesa diante dos temores da gestação em si[2].
No entanto, é cultural que se passe pela gravidez com o discernimento completamente embotado e, quanto a isto, os dizeres de Carlo Goldoni caem como uma luva para exemplificar a oportunidade não aproveitada. Como ele diz: “o mundo é um belo livro, mas é pouco útil a quem não o sabe ler”[3]. Neste diapasão, a gravidez é um evento formador único, mas é muito pouco explorado pelas mulheres e é voluntariamente anulado pelos ideais de consumo e de culto ao artificial.
É muito mais confortável e cômodo seguir a correnteza e viver a gestação de forma infantilizada, mimada por todos, enchendo gavetas de roupinhas; ou, no extremo inverso, de forma alheia, não preparando o ninho, rejeitando e anulando o evento, completamente desconectada do que se passa internamente, em seu corpo e em sua alma;  em uma longa TPM (tensão pré-menstrual), nos dizeres de Adriana Tanese Nogueira[4]. Por que seria mais cômodo? Porque crescer dói mesmo! Exige mudanças, reformas íntimas, exige perdão, exige cortes necessários como as podas nas plantas, exige confiança em si mesma e no invisível.
A gravidez levanta questões há muito custo escondidas e guardadas e, traze-las à tona, para a promoção de mudanças é, por vezes, insuportável. Ocorre que fugir delas, da mesma forma, é inútil, pois elas virão, qual fantasmas, a assombrar o parto, o puerpério, a maternidade. Fiel à sua missão de promotora do progredir infinito – dos indivíduos e do universo – uma força não tardará a exigir desta mulher as reformas necessárias. Seja através de mecanismos puramente psíquicos, seja através de somatizações, essa força miraculosa seguirá empurrando, forçando, cobrando, exigindo; a seu modo e na medida que cabe a cada um viver. Em que pese ser um acontecimento físico, explicado biologicamente com detalhes, a concepção, a gestação, o parto são misteriosos e ligados às emoções e não puramente leis da mecânica. Trata-se de processos psíquicos inconscientes e muito primitivos. Se não fosse assim, não haveria uma infinidade de casais férteis, do ponto de vista biológico, que simplesmente não conseguem conceber. Da mesma forma, não existiriam relatos de gestações e partos que ofendem todas as leis da medicina[5].
Como não se assustar ao enfrentar tão duras e reais questões? Como não se intimidar ao ver seu íntimo tão desvelado? Abrir-se a esta força é a chave para navegar com segurança pelo maremoto que a gestação provoca. Abrir-se! Esta é a saída. Mas, aí vem a questão: como se abrir se, culturalmente, aprendemos desde cedo a se fechar? É verdade, a mulher moderna pagou e vem pagando um preço altíssimo em troca do espaço social que angariou.
Uma conjunção de eventos sociais concorreram para a destruição do feminino em nossa cultura, mas principalmente a Revolução Industrial [6]que modernizou tudo, inclusive a medicina e avançou o patriarcado. A Revolução Industrial gerou profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Ao longo do processo (que de acordo com alguns autores se registra até aos nossos dias), a era da agricultura foi superada, a máquina foi superando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos. Se havia uma máquina milagrosa para fazer tudo e se a quantidade passou a superar a qualidade em razão do consumo, nada mais conseqüente do que se transformar a gestação, o parto e a amamentação em eventos médicos, conduzidos por homens, onde a tecnologia virou protagonista, e não mais um ser humano, a mulher. O ícone desta mudança radical pôde ser observado com a amamentação, antes natural, ao seio, e posteriormente, com a mulher entrando no mercado de trabalho, via mamadeiras e outros artifícios, junto com um leite artificial.
O mundo, como se conhece, domestica as mulheres. Todos se horrorizam com as mutilações feitas contra as mulheres no oriente (e são mesmo atrocidades), mas esquece-se que, inúmeras vezes, no cootidiano, as mulheres são violentadas, castradas, aprisionadas. Assim que nascem, recebem a vagina já com pavor. “Não brinque na rua, feche essas pernas, não se suje, não fale alto, não rale as pernas, não prove nada novo, não mexa com insetos e nem répteis, não lute, não brigue, não pise na grama, nem no barro, nem na terra, aliás, nunca ande descalça!”... e assim vai-se sufocando a menina-selvagem e criando-se a menina-porcelana. Ocorre que quem vai parir um dia não será esta menina de porcelana, boazinha, quietinha, perfeita, limpa e comportada. Não é esta a mulher que se abre à gestação, que se entrega ao parto, que veste a maternidade com honra. Ela não foi ensinada a se abrir, ela não aprendeu a se entregar, ela não exercitou sua sabedoria inata. Quando chega a menarca, privada de um rito especial, chegam com ela os medos,  dores e rejeição: “Odeio ser mulher”, repete a menina em silêncio, a cada anúncio de sangue mensal. Cólicas, cansaço, humores e mal-humores, restrições, maldição! Ela segue a juventude maldizendo seu sagrado sangramento. Ovula com pudor, com nojo, com rejeição. Mais madura, ela busca o amor e para tal imagina, mais uma vez, que precisa adequar-se aos moldes. Ser magra ou malhada (com coxas de jogador de futebol), ou muito bem-sucedida (diz-se aqui: ganhar muito bem) melhor ainda, ganhar mais do que o homem eleito. No trabalho ela sufoca sua sensibilidade para parecer masculina, agressiva, estável, impecável. No salto agulha ela se equilibra na selva masculina e, assim, diz-se feliz, realizada. Ledo engano! Mulheres não são estáveis nunca, oscilam como a lua. Não, elas também não são impecáveis, pois acordam ora divas, ora gatas-barralheiras. Não, ela não está bem, o que ela está é domesticada. Olha a menininha de infância tolhida aí! Cortaram-lhe as garras, serraram-lhe os dentes e ela segue vivendo assim, meio mulher, meio homem. Pintando o cabelo para disfarçar não os fios brancos, mas a alma sufocada. E eis que, um dia, a vontade de ser mãe ressoa. De alguma forma, esse desejo vem até a mulher e ela, então, começa a pensar na maternidade. Mas, durante toda sua existência como fêmea ela rejeitou seus óvulos, ela apagou sua chama, seu fogo interno. Ela viveu uma vida ensaiada, sem protagonista. Ela imitou a estrela da novela, imitou a magrela de Hollywood ou, pior ainda, ela não conseguiu imitar ninguém e seguiu se sentindo uma estranha, muito estranha, quase uma pária. E agora? Os óvulos a muito congelados não vem; os hormônios escondidos à custa de drogas não surgem; o impulso de receber e de se dar não está presente[7].
A mulher agora sofre em silêncio porque ser mulher requer um ato de fé que ela não aprendeu a fortalecer. A fé em sua natureza, em seu feminino, em sua fisiologia, em sua capacidade para receber, gestar, parir e amamentar. Agora que ela segue, seja procurando conceber, ou seja, gestando, ela está realmente só. Nos dizeres de Clarissa Pinkola[8], “quando somos muito nós mesmas perdemos os outros; mas, em contrapartida, quando temos todos os outros, não se tem a si mesmo”. A solução mais próxima para tanto vazio é extravasar por meio do consumo. Compras infindáveis e um feto com vida social antes mesmo de nascer. Cabe aqui uma reflexão da Psiquiatra e Terapeuta Junguiana Eleanor Madruga Luzes[9], que traz:
“A imagem e o consumo, correm juntas. Marketing é imagem, e as gestantes, por exemplo, ao saberem do sexo do bebê, disparam para as compras ‘devidas’. É como se neste ato de consumo já começassem a cuidar de seus filhos – obedecendo a uma conexão “consumo-amor”. A ênfase na visão do interior do corpo grávido e na busca por essas imagens coaduna-se, por seu turno, com a voga biologizante, fisicalista, de culto ao corpo. A conseqüência do ultra-som fetal é a antecipação da existência social do feto, através da tecnologia, modelando as culturas: visual, do corpo, de consumo e de monitoramento. (DUMIT & DAVIS-FLOYD, 1998, DOWNEY & DUMIT 1997, HARAWAY, 1991, e muitos outros).

Para a maioria das mulheres que não irá conseguir, ao menos não desta vez, libertar-se das amarras, sejam elas sociais, religiosas, culturais, enfim, a concepção é mecânica e a gestação patológica, sendo assim, o enxoval vai limitar-se a fraldas, roupas, toalete e quarto todo decorado. A grande sacada do universo e de sua missão maior de provocar o novo, a mudança, a evolução é que aquela menina selvagem foi apenas sufocada, ela não morreu. Sempre existe a oportunidade de ‘virar a mesa’, ‘chutar o balde’, ‘tapar os olhos e ouvidos’ e perseguir, pela selva, mesmo no escuro, o cheiro familiar de ser mulher. E a gestação é o grande ás deste prazeroso reencontro. É o momento para, durante nove meses, nutrir-se, valorar-se, conhecer-se e preparar um enxoval diferente do padrão: o enxoval da alma.Esse enxoval virá às que se permitirem embarcar na viagem. E, quanto a isto, contar com ajuda externa pode ser decisivo. As mulheres sempre tiveram outras mulheres a quem confiar, trocar experiências e, assim, multiplicar soluções; no entanto, mais uma vez, com o progresso tecnológico, os núcleos familiares diminuíram, o corre-corre diário afastou os vínculos e a mulher, hoje, é uma solitária, no mais profundo significado da palavra.
Ler, ver vídeos, meditar, exercer a espiritualidade, exercitar o lado criativo, emotivo, mesmo que esteja há muito soterrado e oculto; tudo isso faz parte do enxoval da alma da mulher gestando. Seguir a gravidez com um pré-natal frio, distante, entregando nas mãos dos médicos os rumos do próprio corpo; frear toda forma de expressão natural, sensível, imaginativa, íntima; gastar todas as energias com o bebê do mundo encantado e estereotipado; cuidar somente do físico, esquecendo-se do emocional; esse conjunto de fatores que hoje são regra no diário das gestantes é praticamente garantia de parto igualmente boicotado, entregue aos médicos. A mulher ali, deitada na mesa fria do hospital, não entrega apenas seu corpo para ser cortado ou manipulado com violência, está entregando sua alma que há tempos foi abandonada, sem a devida nutrição durante os nove longos meses.
Nesta seara, a presença de uma educadora perinatal pode ser decisiva na medida em que pode apontar nortes, promover discussões, investigações pessoais, sugerir aquisições físicas e emocionais para que o parto seja a coroação de uma gestação consciente e plena. Trata-se apenas de valorar este momento, pois, até mesmo para ganhar músculos em uma academia, as mulheres investem em um personal trainer. Porque não dispor de uma educadora? De uma doula? Aliás, indo mais além: porque não ir em busca da educação? Educar-se para, posteriormente, educar o filho que vai chegar.
Mara Freire aponta[10] que cabe à doula ser o mais “invisível” possível, cumprindo seu papel de estar ao lado, apoiar, acolher, sem interferir nas decisões de sua cliente ou da equipe multidisciplinar (médico, parteiras, enfermeiras, outras). É importante deixar a natureza da mulher falar e agir. O corpo com seu instinto é a melhor voz a ser seguida. Contudo, há vários estudos que comprovam que certas posições proporcionam vários benefícios à mulher e ao bebê. Assim sendo, cabe à doula e à educadora perinatal orientar e proporcionar informações durante a gestação ou mesmo na hora do parto, ensinando algumas técnicas e posições que podem contribuir para um melhor bem estar (físico, emocional e fisiológico), para um melhor posicionamento do bebê. O objetivo é permitir que o corpo reaja de uma forma positiva, proporcionando um parto saudável e tranqüilo. A missão, então é de orientar e mostrar possíveis caminhos a serem seguidos, sendo que a decisão final cabe somente à mulher.
A grávida deve buscar, lutar, correr mesmo, em busca do seu enxoval. Palavra derivada do árabe, que significa o conjunto de roupas e de certos complementos, utensílios, mobiliários. Mas não daquele enxoval físico, na cor azul ou rosa do “filho-sonho”. A gestante precisa montar primeiramente o seu o enxoval da alma.
Os noves meses foram muito bem pensados pela natureza; não para forrar as gavetas do quarto do bebê, mas para forrar a alma da gestante de feminino, resgatar a fé de ser perpetuadora da humanidade e, aí sim, abrir-se, permitindo o nascimento daquela mulher e daquele filho. Dilatar, ceder, consentir, dar: verbos femininos da maternidade que precisam ser exercitados emocionalmente durante toda a gestação. A grande maioria prefere comprar, colecionar, investigar, planejar furos em orelhinhas que nem lhe pertencem. "Acabo de sair do exame de ultrassom! Está tudo bem como o bebê!". É o que mais se ouve. Aí está todo o contrasenso: precisa-se que um médico, terceiro estranho ao vínculo, veja chuviscos na tela de um aparelho para que venha a segurança. Isto denota falta de enxoval da alma! A mulher está entregue aos médicos, aos aparelhos e não a si mesma, ao seu bebê em formação. Muitas vezes, este bebê já tem inúmeros vestidos ou sapatinhos, mas ele não tem, ainda, a sua mãe, inteira e plena, entregue, aberta. Ficar grávida é coisa de gente grande, ou melhor, de mulher grande! Por isto ficam todas tão sujeitas, pois aposta-se tudo no mais absoluto escuro. Daí é mais fácil acreditar nas telas frias dos exames do que num corpo que nunca foi ouvido. Engravidar é a mais pura e forte lição de desapego que existe. O apego que, segundo o budismo, é a causa de todos os sofrimentos.
Deve-se entregar ao universo interior, voltar a ser o que é na essência: mulher selvagem, fiel aos instintos, entregue a si e a mais ninguém. É impossível navegar com segurança artificial pela magia da gravidez. Quantas estórias conhece-se de erros? Dever-se-ia faz exames apenas para formação de um pilar de cautela inteligente e continuar tecendo normalidade com a mente. Mas o que acontece é o contrário. Quanto mais investiga-se, mais conduz-se, pior fica, mais confuso, mais nervoso, mais invasivo, mais desrespeitoso.E é nessa sopa psicologicamente negativa e insegura que a mulher mergulha na hora do parto. "Parto? Ah, eu vou esperar normal". Infelizmente, dizer que quere um parto dignamente normal não é o suficiente. Quem viveu a gestação com a alma infantilizada, num mundo no país das maravilhas vai se assustar muito quando conhecer o processo “carne-e-osso” que é o parto. Daí as consequencias psicossomáticas são simples: não haverá dilatação, o bebê não encaixa (mas quem não está encaixada na dinâmica, na verdade, é a mãe), a dor será insustentável, e por aí vai, todas aquelas complicações que os obstetras adoram e, volta e meia, falam orgulhosos: "eu disse, parto é uma caixinha de surpresas".
Dando continuidade à castração do feminino, num rasgo de segundo, haverá um bebê bem real, sem os cachinhos dourados dos sonhos, nos braços desta mulher e ela deverá amamentá-lo com sua alma. Mas, que alma? Aquela infantil e vazia? Não, novamente ela será vítima fácil da artificialização do amor. Seu leite será fraco, insuficiente; ou seus seios não terão bico, ou racharão, ou serão muito grandes, muito pequenos... faltará entrega, coragem, confiança, faltará uma mulher adulta.Nos dizeres de Laura Gutman[11] a mulher se deparará com a sua parcela mais recôndita da alma, encarará tudo aquilo que sempre quis esconder, disfarçar. Por isto os filhos são a melhor ferramenta de crescimento e amadurecimento pessoal que existe, mas isto, claro, aos que estão dispostos a encará-los. O choro do recém-nascido é o choro oculto da mãe. A posição vitimizada é sempre muito confortável, muito cômoda. A pose de Barbie ainda é muito valorizada. Mas não adianta se enganar! A alma cobrará pelo crescimento, mais dia, menos dia, ela aparecerá. A gestação, o parto, a amamentação são veículos maravilhosos de crescimento da mulher, mas se ainda assim ela preferir abafar sua verdade, em algum momento esta mulher faminta virá à tona. Pode-se até se esconder por um tempo, fugir, disfarçar, mas, não há saída: O progredir infinito é a Lei Universal!


BIBLIOGRAFIA

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com Lobos. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro, BestSeller, 2010.

REICHERT, Evânia. Infância, Idade Sagrada. Porto Alegre, Vale do Ser, 2008.
Parto ativo (Janet)

TANESE NOGUEIRA, Adriana. Empoderando as Mulheres. São Paulo, Carla Piaggio, 2009.


INTERNET


NOTAS

[1] Infância: A idade sagrada, p. 111.
[2] Infância: A idade sagrada, p. 112.
[4] Texto: Mulheres e Gravidez hoje (Curso Educação Perinatal da ONG Amigas do parto).
[7] Texto de Casilda Rodrigañez: El útero o El corazon arcaico. (Curso Educação Perinatal da ONG Amigas do parto)
[8] Mulheres que correm com lobos, p. 137.
[10] Texto: Conduta e ética da doula. (Educação Perintal: ONG Amigas do Parto)
[11] A Maternidade e o encontro com a própria sombra, p. 33.

Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo é servidora pública federal, tem 32 anos e escreveu este texto como monografia final do Curso Online ONG Amigas do Parto Educação Perinatal, I semestre de 2011. Contato:

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