quinta-feira, 7 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - Parte 2

Continuando a belíssima explanação sobre o assunto de como educar sem bater nos nossos filhos. Texto da Dra. Ligia e Dra. Andreia. Leiam e reflitam!
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Essa é a segunda parte de um texto que traz uma rica discussão a respeito da pergunta: COMO  EDUCAR SEM PALMADAS?
À primeira parte, publicada em postagem anterior, demos o título de COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, todo mundo precisa saber. Mas decidimos acrescentar dois novos tópicos importantes à discussão e, portanto, trataremos de 11 pontos no total.

Eles são:

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.
2) Use o diálogo sempre.
3) Corrija adequadamente, use a relação "erro-consequência" e não "erro-punição".
4) Use reforços positivos
5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas. (incluído)
6) Como não criar um "bully". (incluído)
7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
9) Agressão psicológica é tão grave quanto agressão física
10) Não tenha medo de quebrar o ciclo
11) Quando sobreviver não é o bastante...

No post anterior, falamos sobre os quatro primeiros. Agora, vamos continuar.
Esperamos que seja útil a todos e que estimule mães e pais que ainda usam a violência como ferramenta a perceber que uma educação mais afetuosa e sem violência contribui para o crescimento e desenvolvimento de crianças mais saudáveis e que se sentem mais amadas. 
Que é, afinal, o que toda mãe e pai deseja.

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5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas

Crianças fazem birra. Se ainda não fizeram, uma hora irão fazer. Algumas vezes, mesmo diante de fatos tão triviais como não poder comer um doce antes do almoço, ou a recusa dos pais em comprar um brinquedo.

Uma das explicações para essas “explosões comportamentais” é: seus cérebros não estão completamente desenvolvidos e podem, com frequência, entrar em “curto-circuito”. Para entender como isso é possível, vamos falar um pouquinho sobre nosso cérebro.

Existem duas grandes áreas cerebrais, as quais vamos chamar de “cérebro reptiliano” e “cérebro mamífero”. O reptiliano é a parte mais antiga do cérebro humano, que sofreu poucas modificações ao longo da evolução, e é basicamente igual em todos os vertebrados. Essa região regula funções básicas relacionadas à sobrevivência, como fome, respiração e digestão, além de reações instintivas de defesa e ataque. Já o cérebro mamífero é mais complexo e foi sendo moldado ao longo da evolução. Está relacionado a habilidades de convivência, à construção de relações sociais, à regulação de sentimentos e reações emocionais como raiva, medo e estresse, pensamentos racionais, capacidade de solucionar problemas, criatividade e imaginação.

O bebê já nasce com a parte reptiliana, que se desenvolve ainda intra-útero. Mas o cérebro mamífero, racional (composto por neocórtex, lobos frontais) vai se desenvolvendo durante o crescimento da criança, atingindo a maturidade por volta dos 25 anos de idade. Sabendo disso, fica mais fácil compreender o porquê das crianças não conseguirem demonstrar alguns comportamentos de maneira precisa. Esperar uma reação emocional equilibrada de uma criança é como procurar minhoca no asfalto, é missão fadada à frustração, pois é simplesmente impossível esperar controle emocional, habilidade para tomar decisões equilibradas, noções claras de ética, de alguém que ainda não possui os “equipamentos” necessários a isso... Da mesma maneira, sua capacidade de compreender as relações de ação e reação, ato e consequência, também estão em pleno desenvolvimento, ainda não acabadas.

Há seis desencadeadores de “mau comportamento” – as tais birras – em crianças:
- cansaço, tédio, fome
- imaturidade cerebral
- necessidades psicológicas não atendidas
- estresse dos pais
- emoções intensas
- estilo de educar dos pais que ativa os sistemas de alarme na parte inferior do cérebro da criança (veja mais adiante, no item “Como não criar um bully”)

Uma criança que está tendo uma birra por angústia, está vivenciando dor genuína e precisa de muita calma e compaixão por parte de sua mãe, pai ou cuidador. Ignorar ou punir a angústia pode ser bastante prejudicial. Assim, procure identificar o tipo de birra e agir de acordo.

Se a criança estiver entediada (ela está gritando e jogando coisas no chão), aumente o tempo que passam brincando juntos. Ofereça alternativas de brincadeiras interessantes. Procure elaborar situações lúdicas no dia a dia.

Se a criança estiver frustrada (quis algo que não pode obter, por exemplo), ajude-a a encontrar as palavras, a expressar seus sentimentos da melhor maneira. Mostre empatia.

Se ela estiver desapontada, ajude-a a lidar com seus sentimentos de dor, não os ignore.

Se seu filho não está te escutando naquele momento, dê-lhe um prazo.

Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
Eu acho essencial para evitar conflitos preparar a criança para o que vai acontecer. Estou sempre adiantando, para eles, tudo o que vai acontecer. Quando saímos, digo todos os lugares para onde vamos, para que não fiquem frustrados achando que depois do primeiro lugar iremos para casa. Na maioria das vezes, deixo para o final algo que eles gostam muito, como ir ao parquinho. Então eu aviso: vamos primeiro na farmácia, depois no verdureiro, depois comprar a ração da Lola e depois no parquinho. Assim eles se preparam e não se frustram.A mesma coisa quando temos que ir embora de algum lugar legal, eu vou avisando: daqui a pouco vamos embora, ok? Daqui a 5 minutos vamos embora, tá? E assim não há birra para ir embora. E, muitas vezes, combino tudo antes mesmo de chegar ao lugar legal: vamos ficar só um pouco, porque temos que ir para casa almoçar para ir à escola, então na hora de ir embora, iremos sem briga, combinado? Funciona muito bem. Muitas vezes a mais velha me olha quando digo que é hora de ir embora e repete: "Vamos sem briga, né mamãe?". Também sempre aviso que não iremos levar nenhum brinquedo dos primos ou amigos quando formos embora da casa deles, porque isso tinha virado mania uma época. Só iam embora levando um brinquedo emprestado. Então, agora, eu aviso que não iremos levar nada emprestado, e assim não rola estresse.No mercado é a mesma coisa: aviso que cada um vai poder escolher um item. Lojas de brinquedo, quando vamos comprar presentes, aviso que só vamos comprar presente para o amigo, que as outras coisas nós podemos olhar, mas não comprar. E eles ficam na boa, sem estresse. Na verdade, eles compreendem muito mais do que a gente imagina. Eu acho que antecipar as coisas é uma ferramenta incrível para evitar frustrações.
 Outra mãe compartilha como lida com birras decorrentes de super-estimulação: 
Meu filho tem 1 ano e 10 meses. Quando fica estressado ou nervoso, procuro pegá-lo e ir com ele para outro ambiente ou local, para se acalmar. Tento desviar a atenção, mostrar alguma coisa que ele se interesse. Quando ele fica mais calmo, aproveito para conversar sobre o que aconteceu.
 Uma coisa é importante ressaltar. Embora as birras possam ser desafiadoras, elas representam uma grande oportunidade para ajudar seu filho a desenvolver conexões essenciais no cérebro, que o ajudarão a lidar com o estresse no futuro (6).


6) Como não criar um ‘bully’

O risco de criar uma criança que irá praticar bullying mais tarde também depende muito do tipo de criação que ela recebe. Um estilo de criação autoritário, onde a criança é disciplinada em excesso, no sentido autoritário do termo, quando é sempre criticada e comandada, pode estar modificando seu sistema cerebral de resposta ao estresse. Isso pode fazer com que seus sistemas de raiva e medo fiquem hipersensibilizados. Esse tipo de criação autoritária também a ensina uma relação de submissão/dominação e, mais tarde, a criança assim criada pode inverter os papéis, passando de submissa para dominadora em outras relações na forma de bullying.

Esse risco é especialmente considerável quando as palmadas fazem parte de sua educação. Quando ela é constantemente criticada, comandada e ameaçada, a região de seu cérebro que é essencial para comandar o pensamento racional, o planejamento e a reflexão pode não se desenvolver adequadamente (5). Além disso, cria-se um círculo vicioso: essas crianças têm menor capacidade de tolerância e paciência e as pessoas costumam reagir mal a elas, o que reforça ainda mais seus comportamentos.

7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.

Por que se bate em crianças e adolescentes?
Provavelmente, as famílias que usam de palmadas não se reconhecem cometendo violência, mas, sim, acreditam que a palmada é correção, educação e, portanto, demonstração de amor.
Porém, essa conexão entre agressão física e amor é perversa, inaceitável e perigosa.
Que tipo de relação estamos incentivando em nossos filhos associando violência a amor?
Quem bate em um filho dizendo que foi por amor está ensinando a ele que é perfeitamente possível apanhar e, ainda assim, amar. Ou bater e, ainda assim, amar. E – SIM! – esse pode ser um dos reforçadores da violência doméstica futura, ou da criação de laços amorosos doentios, baseados na violência.

Vamos além. Vamos discutir o famoso bordão “Meu filho, isso vai doer mais em mim do que em você”.
Essa mensagem confunde em muito a criança.
A verdade é: NÃO VAI NÃO!
Vai doer mesmo é na criança, é óbvio!
Se isso fosse verdade, pai nenhum bateria em filho, pois seria o mesmo que se autoflagelar. Essa frase aviltante é apenas uma desculpa que os pais usam para seus filhos em uma tentativa de justificar as palmadas.

Ainda que você acredite que palmada educa, é importante saber que a resposta que está produzindo na criança é, na verdade, a da CULPA. Ela se sente culpada pela própria agressão que sofreu! Isso pode gerar traumas psicológicos, mágoas, medo constante de ser agredido, humilhação, subjugação, insegurança, logo em quem é mais frágil: a criança.

Quantas crianças se encolhem ou recuam, colocando a mão sobre suas cabecinhas, como para se proteger, ainda que o pai ou a mãe estejam apenas tentando lhes afagar? Isso acontece com muita frequência entre crianças que apanham dos pais. Elas não sabem mais quando a mão estendida é para lhes acariciar ou para lhes dar um tapa. E não sabem por um único motivo: eles não entenderam o motivo pelo qual apanharam. E não entenderam porque não lhes foi efetivamente ensinado. Apenas entenderam que: podem apanhar a qualquer momento. Quem apanhou na infância pode se lembrar de diversos momentos como esse...

Lembre-se sempre que o que educa não são as palmadas.
É a preocupação com a vida dos filhos, a empatia, a demonstração de tolerância, o diálogo.
Tudo isso é o que demonstra amor e realmente educa.
Uma criança que vive em uma família cujo amor é expresso pela gentileza e não pela violência aprende que essas coisas são excludentes e que, portanto, é com gentileza que se deve tratar aquele a quem se ama, nunca com violência. Por isso se diz tanto que, para termos uma sociedade futura amorosa e não violenta, é preciso, HOJE, cuidar com amor e não violência de nossos pequenos.


8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?

Quem já viu um cérebro, seja em aulas de anatomia, seja em imagens de livros ou sites de ciência, sabe que ele possuiu uma aparência superficial composta por diversas dobras. Essa camada que vemos na superfície é chamada de neocórtex. Como o próprio nome diz, é um córtex cerebral “novo”, no sentido de “surgiu recentemente na evolução biológica”. Isso significa que não está presente em todos os animais. Essa camada surge apenas nos mamíferos – peixes não tem, anfíbios não tem, répteis também não, nem tão pouco as aves. Na maioria dos mamíferos, é uma região muito pouco desenvolvida, e é nos primatas que o neocortex se desenvolve mais. Principalmente nos primatas humanos. Eu, você, seu filho, todas as pessoas. Por que isso é importante? Simples: pela função dessa área cerebral.
O neocortex é um modulador fino do comportamento. Ele garante (ou deveria garantir...) nossa adequação comportamental em diferentes ambientes, integrando funções como o pensamento, a análise múltipla da situação, o estabelecimento de estratégias, a análise dos prós e contras de nossas ações, acionando memória, antecipando consequências, entre outras funções. E, mais importante para os fins aqui discutidos, ele regula e controla a expressão do cérebro primitivo, especialmente a expressão de uma estrutura cerebral chamada amígdala, responsável pelo comportamento agressivo.

Para os animais sem neocórtex, situações que envolvem medo, ameaça, aborrecimento, disparam comportamentos de ataque, luta, enfrentamento, ou fuga. Mas nós, humanos, teoricamente deveríamos ser capazes de modular nossa agressividade por meio da reflexão – afinal, nós temos neocórtex bem desenvolvido!

Quando nossos filhos fazem algo que está em desacordo com o que esperávamos, é natural, portanto, que tenhamos ímpetos de contrariedade. A vontade de agir vigorosamente, por vezes de maneira violenta (física ou emocionalmente falando) vem de nosso cérebro primitivo. Mas a capacidade de refletir, de ponderar, de analisar os fatos – nossos filhos são seres frágeis que precisam de nós, que precisam de nossa orientação e apoio afetuosos, não de violência – nos faz bloquear a expressão do comportamento agressivo primitivo, substituindo-o por comportamento HUMANO, de fato. Não somos “humanos” à toa. Nós temos maquinaria para nos humanizar...
Quando gritamos com nossos filhos, quando batemos neles, quando os agredimos verbalmente e os ofendemos, estamos dando vazão ao nosso lado primitivo e esquecendo o que nos caracteriza como seres humanos: a capacidade de integrar razão à emoção, de ligar neocórtex ao sistema límbico (que comanda as emoções).
Sempre se diz que animais como cachorros e gatos são, muitas vezes, mais afetuosos que alguns pais e mães. Isso não é uma bobagem. Cachorros e gatos também têm neocortex e, portanto, conseguem estabelecer relações afetivas moduladas. Por que, então, negar nossa capacidade de modular nosso estado agressivo?

Em resumo: bater em alguém, adulto ou criança, é nada mais que um sinal de inaptidão de controlar os próprios instintos agressivos. É um atestado de ineficiência. Todos podem aprender a lidar melhor com sua agressividade. Meios físicos para isso – regiões cerebrais -, pelo menos, não nos falta.

No entanto, diversas situações cotidianas são capazes de nos “tirar do sério”, de estimular nosso lado agressivo, primitivo. Um dia de muito trabalho, o acúmulo de problemas, a falta de dinheiro, o trânsito intenso, as muitas contas a vencer, a roupa pra lavar que não para de aumentar, a falta de sono, entre muitas outras situações comuns do cotidiano. Tudo isso é capaz de diminuir nossa tolerância, o que significa nos colocar em maior contato com nosso cérebro primitivo.
Nesse contexto, aparecem os tapas, as palmadas, os beliscões, os gritos e as ameaças, não somente porque nossos filhos assim estimularam, mas porque nós estávamos suscetíveis e vulneráveis. Identificar essas situações nos ajuda a ponderar nosso comportamento.

Se nos sabemos nervosos, irritados, cansados, isso deve nos ajudar a melhor interpretar o comportamento de nossos filhos. Eles não estão jogando as coisas, ou bagunçando, ou falando alto porque querem nos irritar. Eles estão agindo como crianças e precisam de orientação.

Ser sincero é sempre um bom caminho, pois mostra aos nossos filhos que somos como eles, não super heróis, e que temos maus dias. As crianças criadas com afeto são empáticas, conseguem se colocar no lugar dos outros, a dor do outro também dói em si. Um pai e uma mãe que diz: “Filho, mamãe está cansada, ou chateada, agora. Você pode ficar aqui comigo, sem fazer bagunça, e me dar um abraço?” torna-se muito mais próximo e produz um resultado muito melhor e duradouro do que aquele que desconta seu cansaço e chateação sobre quem não tem responsabilidade sobre isso, e que daria muito amor para ajuda-lo, se a ele fosse pedido.
Agir empaticamente, mostrar as fraquezas, mostrar-se humano, pedir um abraço, dizer que se está cansado, com doçura e afeto, aproxima pais e filhos, diminui a hostilidade e cria um clima de cooperação e entendimento.


9) Agressão psicológica é tão grave quanto a física

“Eu desisto de você”.
“Você não faz nada certo”.
“Você é mentiroso!”
“Ah, isso é coisa do fulano. Não se pode esperar nada dele”.
“Você não vai chegar a lugar algum”.
“Você é problemático!”
“Você é impossível!”
“Seu irmão faz, só você que não”

Essas são todas frases muito comuns em alguns círculos familiares e, também, em ambientes escolares. Comuns e muito mais frequentes do que pensamos. E, no entanto, representam ofensa, constrangimento e humilhação.

Se você não sabe, saiba agora: SÃO FORMAS DE VIOLÊNCIA. Capazes de deixar marcas profundas na criança e no adolescente. Marcas que podem alterar para sempre a imagem que eles têm deles mesmos, ou que estão construindo.

E o mais grave de tudo isso é que a maioria dos pais tem grande dificuldade em reconhecer que essas violências verbais também são formas de agredir um filho.

Criança que sofre esse tipo de violência passa a questionar seu valor, a se achar incapaz de ser amada. Ela não entende como aquela pessoa que mais deveria amá-la pode dizer aquelas coisas pra ela, ou ameaçá-la, ou tratá-la com desprezo, ou humilhá-la, ou privá-la de amor. Fica pensando "Por que? Por que?" sem que encontre a resposta. Às vezes, como resposta, convence-se de que é porque ela merece. E talvez cresça achando que merece ser tratada assim. E criança alguma merece crescer pensando isso... (7).

Por que algumas pessoas levam uma vida normal mesmo tendo sido submetidas à violência quando crianças, enquanto outros viram “delinquentes” ou desenvolvem problemas severos? Aí entra uma ideia ainda pouco discutida que é o conceito de resiliência.

Ser resiliente significa ter a habilidade de se adaptar, com êxito, a eventos estressantes, mesmo tendo sido um indivíduo exposto a fatores de risco. Em outras palavras, seria conseguir se recuperar de uma adversidade, se adaptar e ter uma vida significativa e produtiva "a despeito de".

Existem indivíduos mais resilientes, outros menos - ou nada - resilientes. Os primeiros são os "duro na queda”. Os segundos são os mais frágeis, os que adoecem (física ou mentalmente) ao menor estresse, que não têm uma estrutura emocional capaz de aguentar tanta adversidade.

Por que essa diferença? O que faz com que as pessoas sejam assim diferentes nesse aspecto? É, também, uma questão de desenvolvimento neurobiológico, entre tantos outros fatores.

E como saber se uma criança será mais resiliente ou menos resiliente? Como saber se ela se tornará um ativista contra a violência ou um reprodutor da violência, ainda que tenha sido submetida a ela? Não é possível uma resposta simples a essa pergunta.

Mas uma coisa é certa: AMBOS sofrerão com as lembranças da violência a que foram submetidos. Porque ser resiliente não afasta o sofrimento de saber que alguém te tratou mal, te machucou e te fez chorar até dormir (7). Ou seja: o sofrimento estará, de qualquer forma, presente.


10) Não tenha medo de quebrar o ciclo

Outra explicação para o fato de que os castigos físicos sobrevivam até hoje em alguns países é A CULTURA.
Nós reproduzimos a educação que recebemos e, como muitos dos adultos dos dias atuais apanharam quando criança, o ciclo de violência continua a ser reproduzido.

Veja uma explicação à luz da neurociência.
O cérebro que sofre violência muda. Alguns poucos se revoltam e passam a abominar a violência. Mas a maioria, agredida pelos pais em sua infância, passa a naturalizar a violência, que se torna aceitável.
Quando crianças, nosso cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe; a amígdala simplesmente não faz essa associação com a própria mãe. Como resultado disso, as crianças que apanham, apesar de terem medo da punição, não acham que a mãe é má ou está errada. E, assim, se torna um adulto que acha que apanhou "porque mereceu". Acha que dar palmadas é certo. Porque se achar errado, significa julgar como errada a ação de sua mãe. Assim, segue o exemplo recebido e passa, agora, a bater em seus próprios filhos, perpetuando o círculo vicioso.

Quebrar o ciclo não significa negar os próprios pais ou cuidadores, quando esses foram violentos. Significa compreender profundamente todos os contextos. E entender, verdadeiramente, que as experiências constroem quem nós somos, mas não determinam quem nós somos. Quando falamos sobre cérebros, nosso tom é de possibilidade, de contribuição, de participação da estrutura neurobiológica em um processo mais amplo. Nunca de determinação.
Nada nos determina.
Nada nos sujeita.
Assim deve ser.
Se fomos criados com violência, não precisamos passar isso para frente. Fazer isso seria reproduzir, sem questionamentos, sem reflexão, sem entendimento, comportamentos que nos fizeram sofrer. O passado passou. Vamos recomeçar.
Criar com amor nos ajuda, também, a ressignificar experiências anteriores.
Faz bem às gerações futuras. Aproxima as atuais. Concilia as gerações passadas.


11) Quando sobreviver não é o bastante...

Citando Dr. Gonzalez novamente: “As crianças necessitam tão desesperadamente do contacto e da atenção dos seus pais, que são mesmo capazes de aceitar os maus tratos como prova de carinho, à falta de melhor. Algumas crianças que não conseguem receber atenção salutar suficiente pelas vias normais chegam a procurar uma atenção patológica por vias anormais. Pensa que o seu filho pediria uma palmada se pudesse ou soubesse como pedir outra coisa, se fosse capaz (em casos mais graves) de conceber a existência de outra coisa? Também espero que algum dia os meus filhos sintam saudades minhas e me recordem com carinho. Espero que não seja por uma palmada ou um pontapé. E o leitor? Que recordação indelével gostaria de deixar?”

Muitas pessoas dizem que apanharam na infância e que, ainda assim, não são más pessoas. Vem daí o clássico: “APANHEI E SOBREVIVI”.

A verdade é que essas pessoas são boas pessoas NÃO PORQUE APANHARAM, mas porque muitas outras coisas boas lhe foram passadas, e isso sim fez a diferença.  
Se ainda mais coisas boas lhes tivessem sido passadas, no lugar da violência, imaginem quão melhores seriam! 
Afinal, ninguém quer que um filho SOBREVIVA. 
O que queremos é que eles vivam bem, vivam felizes, cresçam saudáveis.
Você, que apanhou e diz que sobreviveu, como se sente diante da possibilidade de ser melhor ainda do que se é sem ter experimentado dor?

Vale também reforçar que as crianças não são propriedade dos pais.
Elas estão sob sua responsabilidade, mas precisam ter sua integridade física respeitada.
O castigo físico em crianças é uma forma autoritária de exercer o poder. E, consequentemente, de ensinar às crianças que, em situações de poder, a violência pode ser uma ferramenta útil de controle.

E, então, estaremos, sem perceber, criando os tiranos do futuro. 
E isso é imensamente importante de ser ressaltado, já que algumas pessoas dizem que os tiranos surgem quando não apanham... Está mostrado, portanto, como isso não é verdadeiro. O tirano aprende a tirania pelo exemplo que teve.

Eduque seu filho de maneira a reconhecer sua dignidade. 
Esse é um grande presente para seu futuro em termos de saúde mental, inteligência emocional e social.
É um legado que você deixará.


Nosso sincero agradecimento às mães que contribuíram com relatos espontâneos sobre suas formas de maternar, com o objetivo de ajudar outras famílias e educadores e mostrar que a educação sem violência é totalmente possível.


Referências:

1- Sena, L.M. Educação sem violência. Porque bater não é educar...2013.http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html
2- Hagerty MR. Testing Maslow’s hierarchy of needs: National quality-of-life across time. Social Indicators Research. 46: 249-271. 1999.
3- Gonzalez, C. Besame Mucho, Como criar seus filhos com amor. Coleção Pais Modernos. Editora Pergaminho, 2005.
4- Klein, T.M. Quase 10 anos – A história de uma educação sem palmadas. 2011.http://guiadobebe.uol.com.br/quase-10-anos-a-historia-de-uma-educacao-sem-palmadas/ 5- Shea A, Walsh C, Macmillan H, Steiner M. Child maltreatment and HPA axis dysregulation: relationship to major depressive disorder and post traumatic stress disorder in females.Psychoneuroendocrinology. Feb;30(2):162-78. Review. 2005.
6. Margot Sunderland, The science of parenting. DK Publishing Inc. 2006.
7 – Sena, L.M. Por que rimar amor e dor? 2010. http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2010/11/pra-que-rimar-amor-e-dor.html

terça-feira, 5 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? – 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, o educador, todo mundo precisa saber - 1ª parte


Compartilhando a primeira parte deste super artigo desenvolvido pela Dra. Ligia e pela Dra. Andreia. Artigo super informativo  que esclarece muito sobre a natureza infantil, e como lidar com elas sem apelar para a agressão ou "palmadinha". Leiam, compreendam e a meditem sobre o assunto!
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Dra. Ligia Moreiras Sena
Dra. Andreia Mortensen

Em post anterior (Educação sem violência. Porque bater não é educar), falamos sobre os estudos que mostram, com frequência cada vez maior, que o uso da palmada como medida de disciplina não é benéfico, ao contrário do que muitos pensam, e que produz prejuízos de diferentes ordens à criança, como maior incidência de agressividade, tristeza, ansiedade, uso de drogas e álcool,  entre outros problemas comportamentais a longo prazo (1).

Agora, vamos além de estudos.
Vamos em direção aos tantos bons exemplos que são dados diariamente por aí. E, claro, reforçados pelo que já conhecemos sobre o desenvolvimento cerebral humano.
Partindo do princípio de que a palmada ainda é, infelizmente, muito utilizada, sabemos que apenas levantar essa discussão não basta. É preciso mostrar que educar sem bater é verdadeiramente possível. Que muitas famílias encontraram um caminho de não violência na criação de seus filhos. Que muitos de nós, pais e mães, conseguimos driblar o sentimento de impotência e transformá-lo em educação ativa, não opressora, respeitosa e afetuosa, que exclui verdadeiramente a violência como ferramenta.

Para isso, organizamos 9 pontos importantes que precisam ser discutidos por quem quer mudar a forma de agir e por quem quer entender melhor sobre as consequências da violência contra a criança, da palmada à surra, passando pela violência emocional e psíquica. É um texto que conta com a colaboração de muitas mães que ofereceram espontaneamente seus relatos, na tentativa de compartilhar suas experiências respeitosas de criação dos filhos e, assim, ajudar outras famílias.

Como, obviamente, é um texto muito longo, nós o dividimos em duas partes.

Nesta primeira parte, publicada hoje, trataremos dos seguintes temas: 

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te 

ajudará a obter ferramentas para educar em todas idades.

 2) Use o diálogo sempre.

 3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”.

 4) Use reforços positivos.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, trataremos dos demais tópicos, que são:


5) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
 
6) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
 
7) Agressão psicológica é tão grave quanto a física
 
8) Não tenha medo de quebrar o ciclo
 
9) Quando sobreviver não é o bastante...



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 Se não podemos e não devemos, nunca, em nenhuma hipótese, dar palmadas em nossos filhos - ou usar qualquer outra forma de violência - como vamos então discipliná-los?
 Antes de partir para exemplos práticos, no entanto, é preciso uma reflexão.

Afinal, o que é educar? É apenas ensinar a obedecer?

Não.
Educar é transmitir valores, estimular o comportamento ético, empático, solidário, reflexivo, coisas que a criança vai levar para a vida inteira.
É ensinar a tomar boas decisões em situações de conflito.
É ensinar empatia.
É exercer o diálogo.
É reconhecer e elogiar os bons comportamentos.
É conhecer as fases de crescimento para entender e lidar melhor com as diversas situações na jornada da educação.
É, sobretudo, dar bons exemplos.

Vamos, portanto, falar sobre nossos filhos?
Vamos falar sobre características fundamentais, que tantas vezes nos passam batido em função da correria da vida cotidiana, dos tantos problemas que temos que resolver, das questões como alimentação, desfralde, escola, amiguinhos, saltos de desenvolvimento, conflitos familiares?
Vamos falar das crianças?
Vamos lá.

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.

As crianças são boas em sua essência. 
Suas necessidades afetivas são tão importantes quanto as físicas. Nosso bem estar, como seres humanos, está intimamente ligado à capacidade de suprir as necessidades fisiológicas, de segurança, amor, relações afetivas, autoestima e auto-realização (2).
Nós, pais, devemos atender a todas essas necessidades.
Não é suficiente atender apenas as necessidades físicas e ignorar seus estados emocionais. E é isso o que se faz quando atentamos para suas necessidades mais imediatas mas infligimos dor, humilhamos e os confundimos, estados associados ao uso das palmadas no dia-a-dia.
Como bem explica Dr. Carlos Gonzalez, no livro Besame Mucho(3): 
“Crianças criadas com carinho e respeito são carinhosas e respeitadoras. Não durante todo o tempo, claro, mas durante a maior parte do tempo. Essa é a tendência natural, pois, no ser humano, a cooperação com outros membros do grupo é tão natural como andar e falar. Para conseguir que as crianças se tornem agressivas, temos de empurrá-las de alguma maneira para afastá-las do caminho habitual. As crianças educadas com gritos gritam. As crianças educadas com palmadas também batem nos outros”.
Então, ao desconstruir o mito de que toda criança é um serzinho terrível e impossível de controlar e ao abraçar a ideia de que elas são abertas ao diálogo e nos observam o tempo todo (ou seja, que nosso EXEMPLO é a ferramenta mais poderosa na educação), abrimos as portas para uma educação baseada na disciplina positiva. Para ideias e 10 lições importantíssimas sobre educação sem palmadas, veja a referência 4.

Nesse sentido é importante entender que um bebê de dois anos, por exemplo, que faz birra e se joga no chão como resultado de uma frustração, provavelmente não está agindo assim para aborrecer seus pais. Ele o faz porque não tem elementos para expressar seus sentimentos de outra forma. Aquela criança precisa de ajuda para sair daquele estado de hiper-agitação, pois está fora de sua rotina, ou com fome, ou super estimulada, ou necessitando de outro tipo de apoio.
Ela não precisa de repreensão.
Repreender significa interpretar o comportamento dela como uma malcriação quando, na verdade, ela está apenas expressando uma frustração, com as ferramentas de que dispõe.


2) Use o diálogo sempre

Muitos pais alegam que usam a palmada “em último caso”, quando a conversa não surte mais efeito.  Ou quando as crianças estão em processo de “birra”, como para dar um susto e suspender, assim, aquele comportamento.
No entanto, é preciso entender que, muitas vezes, uma conversa só não é suficiente. É preciso repetir, tornar a repetir muitas e muitas vezes, numa linguagem acessível à criança de acordo com sua idade. Por isso, paciência é sempre fundamental.

Apesar de quase irresistível, o ideal é economizar no NÃOe focar no SIM.
Não, não estamos falando de deixar tudo a partir de agora.
Estamos falando de oferecer OPÇÕES.
Ao invés de simplesmente proibir algo – e dar uma palmada no caso da criança não obedecer – redirecione-a para outra atividade.
Dar palmada quando a criança faz algo que foi proibido não ensina, não educa, não orienta, apenas pune momentaneamente.

Veja esse exemplo.
Se nós dissermos a você “NÃO PENSE EM MAÇÔ, no que você pensará imediatamente?
É por isso que quando você diz “FILHA, NÃO PULE NO SOFÁ”, ela continua a pular...
Mas se você disser “Filha, venha pular aqui nesse tapete, ou nessa pilha de travesseiros, ou nessas folhas”, isso fará mais sentido a ela.
Se você disser: “Filha, venha cá, vamos dançar juntas!”, então, melhor ainda: a energia da criança que está pulando no sofá será direcionada para uma atividade feita junto à mãe, ao pai, ao cuidador, com empatia e amor.

Outro exemplo.
Ao invés de “Menino, você não pode ver TV antes de fazer a lição de casa!”, você pode dizer: “Quer ver tv? Tudo bem, mas primeiro vamos fazer a lição de casa”. Menos NÃOs, mais opções.

Veja a explicação dessa mãe: 
Aqui a pequena tem 10 meses e minhas batalhas tem sido: não tirar o chapéu quando vamos passear, não colocar coisas muito pequenas na boca (como pedrinhas), não pegar coisas na casa dos outros.O que eu comecei a fazer foi formular as frases sem o "não". Porque percebi que é realmente confuso pra criança. A gente vai no automático e já grita "não mexe aí" e não percebe que tem várias informações implícitas nessa frase que só são óbvias pra gente!Por exemplo o "aí" quer dizer o quê? Isso é pronome! Quer dizer que substitui algo na frase. Ou seja, a gente pede pra não mexer em algo que a gente sabe o que é mas que nem especificou pra criança o que é.E o "não"? Significa que você vai inverter o significado do que vem na frente. A gente manda fazer o contrário de "mexer", alque que a gente nem disse qual é e espera que a criança adivinhe.O que exatamente significa "não mexer"? É difícil explicar sem usar o não. E se a gente que é fluente na língua tem dificuldade em explicar, como é que eles vão saber se nem falam direito ainda??Dizer "não mexe aí" é exatamente igual a "vai, mexe aí" pra pequena cabecinha deles.Depois que descobri isso parei de usar o "não" em frase de comando.Uso "o chapéu fica na sua cabeça" ao invés de "não tira o chapéu".Uso "a pedra/bola de gude/moeda (o que quer que seja pequenininho que ela SEMPRE acha e quer por na boca) fica fora da sua boca" e impeço de colocar na boca se for necessário.Uso "sua mão fica longe desse enfeite/bolsa/vela (o que quer que seja que ela quer pegar na casa de alguém)". E aí eu redireciono, dou outra alternativa se possível.

Ainda, sobre a fase dos 2 anos, é necessário entender que a vontade da criança de fazer alguma coisa é MUITO grande, maior do que a capacidade dela de desviar sua atenção. A criança quer, quer, quer, quer. Então, se ela está para fazer algo perigoso, vá você mesma e a retire do local, oferecendo outra alternativa.

Outra mãe diz: 
“Minha filha tem 2 anos e volta e meia dá chilique. Dependendo do lugar, da situacão, do motivo, eu ajo de uma forma diferente.
Abaixo-me na frente dela, seguro-a firme pelos bracinhos, olho nos olhos e converso com o tom de voz mais calmo possível. Depois da conversa, um abraço funciona que é uma beleza :) Se estamos no supermercado, simplesmente pego-a no colo e saio andando.
Se ela está exigindo minha atenção mas eu estou lendo um livro, o livro vai obviamente esperar a hora em que ela estiver na caminha. Dou a mão a ela e deixo ela me mostrar o que ela quer fazer. Do contrário, lógico que ela vai ficar frustrada e vai rolar um chiliquinho. Se estou fazendo comida e não posso dar mais atenção, coloco uma cadeira pra ela ficar em pé do meu lado, acompanhando o processo. Aproveito para explicar o que estou fazendo, e o que cada ingrediente é”.
 Então, tenha em mente o seguinte: quando as orientações e limites vêm do diálogo, a criança compreende que esse tipo de abordagem se aplica a tudo quanto é tipo de situação. Ela aprende que pode questionar uma “ordem” e que terá uma explicação e não uma repreensão. Ela aprende que não será punida fisicamente por ser curiosa e por explorar o mundo à sua volta.
  
Outra mãe compartilha sua experiência: 
Acho que dar duas opções viáveis para criança também vale.Por exemplo, está chovendo e logicamente não quero que ele saia na chuva. E ele está louco pra ir lá. Então, dou duas outras opções viáveis como "ler livrinhos" ou "brincar na brinquedoteca", porque está chovendo e lá fora hoje não vai dar...Ou, se preciso ir ao mercadinho e sei que ele está doido para passear, faço um combinado: "que tal irmos passear na praça?". E quando ele concorda, digo "então depois da praça a mamãe precisa passar no mercadinho, tudo bem?". Se ele diz "não", o que é raro, porque já tem seu desejo atendido antecipadamente, então eu insisto "mas a mamãe precisa, você pode ir comigo?" Pronto, ele ama ajudar e 99,9% das vezes concorda em ir.
 Diálogo é sempre melhor do que bater, porque as palmadas nem sempre levam à criança o motivo delas. A criança sabe, apenas, que não quer voltar a levá-las. Quando ela deixa de fazer aquilo que foi punido com palmada, apenas deixou por medo, não por entendimento. Quando repete, foi porque perdeu o medo e precisará de palmadas mais intensas ou frequentes. E, quando a família perceber, está mergulhada em uma rotina violenta de educação da qual não consegue sair.

Opte sempre por falar calmamente com a criança, explicando-lhe o que fez mal e qual a melhor forma de proceder, usando sempre linguagem e exemplos apropriados à sua idade. Algo simples para uma criança de 4 anos é:
“A casa fica bagunçada quando você deixa todos os livros no chão. Da próxima vez, a mamãe vai gostar mais de vê-los arrumados nos lugares certos”.
Levante e AJUDE a criança a arrumar a bagunça.
Participe e dê o exemplo.
Trabalhem em conjunto.

Outro argumento utilizado para o uso das palmadas é “garantir a segurança física da criança, quando elas ainda não entendem o perigo”, como garantir que ela não mexa na tomada, que não atravesse a rua, que não pule da varanda, e assim por diante.
No entanto, o papel do adulto é proteger a criança dos perigos.
Manifestar essa proteção na forma de castigo físico é, portanto, um contrassenso.
Evita-se um mal com outro.
Uma criança que é tratada sempre com carinho e gentileza, ao receber uma reprimenda ríspida, ficará sempre muito surpresa. Se, associada a essa reprimenda, ela receber uma explicação sobre o motivo, o resultado será muito melhor do que o obtido com o uso de palmadas.
E lembre-se sempre! Guarde os ‘NÃOS’ e abuse do ‘SIM’, oferecendo alternativas ao comportamento indesejado sempre que possível.

Além disso, não faça da sua casa uma tortura chinesa onde quase tudo é proibido - as crianças  PRECISAM TER espaços livres para brincar, explorar. Então, guarde o que for perigoso, cubra as tomadas. Separe um espaço na cozinha com panelas e utensílios de madeira e deixa-a ‘cozinhar’ contigo.
Uma mãe compartilha como lida com essa questão: 
Minha bebe joga a comida longe na hora da refeição, e espera que eu pegue de volta sempre e coloque no prato de novo, mas agora não pego mais não, ela já entende que não é para jogar no chão. Falo que se ela joga no chão não da mais para comer, repito sempre frases simples e gesticulando bastante como "Chão sujo (((cacaca))) não pode comer mais”.Já teve choro, birra, mas fazer o que, fica sem mesmo!Mas é sempre a mesma historia, uma hora ela entende.Outro exemplo é quando ela pega algo que não é para pegar (principalmente porque fica fora de lugar) tipo minha carteira, a carteira do papai, documentos, faturas etc.Sempre que a pego no ato, digo: "Nossa, você achou para a mamãe, obrigada filha!" e ela me dá na maior alegria.
Finalmente, outra situação usada para justificar palmadas é quando a criança agride um irmãozinho menor.
Aqui, vale novamente reforçar: criança aprende com exemplo e empatia. Como é, então, que ela irá aprender que não se deve bater no menor quando seu próprio pai dá o exemplo contrário, batendo nela, que é tão menor que ele? 

Uma mãe oferece uma dica: 
“Se os irmãos estão brigando, se há ciumes com o bebê, além de dizer que não pode bater porque machuca, diga que são amigos, que se amam e que tem que fazer carinho, pegue a maozinha e coloque para fazer carinho. Com o tempo, param de se bater”.

3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”

 Quando um adulto comete um erro, ele é punido com as consequências de seu próprio ato.
Aplique a mesma lógica na correção infantil: ao invés de punir a criança que erra com palmada, chinelada, beliscões ou outro tipo de castigo físico, introduza a ideia de causa e consequência.
Sujou o sofá? Ajude a limpar.
Quebrou o brinquedo? Mostre que ele não funcionará mais.
Jogou a bola em lugar inacessível? Mostre que agora não será mais possível brincar com ela.
Tirou todas as roupas do armário? Mostre que agora ela precisará guardar tudo.
  

4) Use reforços positivos

Procure elogiar mais do que criticar. 
Elogios induzem a criança a continuar com o bom comportamento. 
Essa é uma forma saudável e não violenta de estabelecer bons comportamentos a longo prazo.
Ignorar o mau-comportamento do seu filho e dar bastante atenção quando ele se comporta bem dá um ótimo resultado.
Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
“Elogio meu filho toda vez que leva seu prato à pia, depois das refeições.Ao mesmo tempo explico que todo mundo em nossa família colabora, todos colocam os pratos na pia, e revezamos quem os lava. Ele ainda não lava (tem 8 anos), mas já entende bem o conceito de que todo mundo tem sua parte na família.
Além de levar o pratinho para a pia, ajuda a dobrar as roupas e as guarda nas gavetas todos os dias. E conforme vai crescendo, vai ganhando novas responsabilidades’.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Entrevista e breve relato de parto de Letícia de Oliveira


Alice, uma boneca de tão linda!


 1-      Como soube das Doulas e porque se interessou em ter este acompanhamento? Já lia muito a respeito do trabalho das doulas há mais ou menos 2 anos antes de engravidar quando comecei a pensar no assunto. No começo, até entender o que realmente era parto humanizado, nem cogitava ter uma, mas a medida que fui me informando, percebi que queria um parto com o acompanhamento de uma doula.

2-      Como escolheu a sua doula? Queria uma doula que morasse próximo a minha casa. Encontrei minha doula no facebook e a conheci num encontro sobre parto.

3-      Como foi ter uma doula no parto? Essencial. Me senti amparada emocionalmente e segura por ter alguém com bastante conhecimento sobre parto.

4-      Por quê decidiu ter um parto normal/ natural? Por que quis ser respeitada, não quis sofrer nenhum trauma no momento que seria o mais inesquecível da minha vida.

5-      Como foi o trabalho de parto e nascimento? Se pudesse voltar atrás,faria algo diferente? Foi longo, tranqüilo e respeitoso. Talvez se pudesse voltar atrás teria ficado mais um tempo em casa antes de ir ao hospital mas, principalmente, teria tentado DORMIR e descansar no início do trabalho de parto.

6-      Se tiver outro filho, pretende parir de novo e ter uma doula ao seu lado? CERTAMENTE.

7-      Como esta se sentindo depois da experiencia de parir, como esta a recuperação pós parto? Após o nascimento me senti como se nunca tivesse parido. Uma sensação maravilhosa. O pós parto foi ótimo no aspecto físico, emocionalmente nem tanto, tive alguns problemas  que interferiram no meu bem-estar.

8-      E os cuidados com o bebê e a amamentação estão seguindo bem? Tive bastante problemas com amamentação justamente por situações de stress que enfrentei referente ao meu trabalho. Amamentei exclusivamente no peito somente 25 dias. Não tinha leite.

9-      Sua experiencia com o parto foi positiva? Sim

10-  Você ficou satisfeita com o trabalho da doula? Sim

11-  Conte em algumas linhas como foi seu parto e ver seu bebe pela primeira vez. Se quiser deixe uma dica para as futuras mães.
Meu parto foi como sonhei, com uma médica excelente e humanizada, uma doula muito dedicada e um marido companheiro.
Um trabalho de parto intenso e cansativo, mas completamente transformador.
Um expulsivo calmo, demorado e que me trouxe uma nova vida.
Claro que aprendemos muito numa primeira experiência e para um próximo parto, sonho mais alto.

Um conselho a quem sonhar com um parto humanizado, busque, informe-se e não aceite os “nãos” que aparecerem. Vale a pena cada sacrifício e renúncia.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

5 PERGUNTINHAS PARA SABER SE SEU MÉDICO É “CESARISTA”

google imagem

Por Ana Cristina Duarte, parteira e Dr. Jorge Kuhn, médico obstetra.
Alguns médicos se fazem de bonzinhos e dizem que “fazem parto normal” para atrair clientes aos seus consultórios, quando na verdade eles só “assistem” partos normais de mulheres que chegam no hospital no expulsivo!
Primeiro que quem faz o parto não é o médico é a mulher, se o médico diz que “faz normal” sinal de que será cesárea na certa. =/
Depois, a grande maioria desses médicos atende por convênio é quer garantir o máximo de retorno das seguradoras então nem se preocupam com suas pacientes.
Se você pretende de fato ter um parto normal, sem riscos desnecessários para o seu bebê, seguem 5 perguntinhas básicas para verificar se o seu obstetra tá na mesma sintonia que você:

1) Doutor, quais as chances de eu ter um parto normal?

Resposta certa: 90%, pelo menos;
Resposta errada: ainda não dá pra saber, depende de como o parto vai caminhando, porque se der algum problema, não posso deixar você e seu filho morrerem, a gente só sabe na hora mesmo…

2) Doutor, quanto tempo dá pra esperar depois da bolsa romper?

Resposta certa: até 96 horas (4 dias), de acordo com o protocolo inglês, ou até 24 horas de acordo com os protolos mais conservadores, desde que o seu bebê esteja bem. Talvez a gente tenha que administrar um antibiótico se depois de 6 horas de bolsa rompida você não tiver entrado em trabalho de parto. E se você não entrar em trabalho de parto espontaneamente após esse prazo, a gente tem que induzir.
Resposta errada: 4 horas, 6 horas no máximo, senão o bebê pode pegar uma infecção mortal!!! E nem adianta induzir. Não nasceu em 6 horas, não nasce mais, pode fazer cesárea!

3) Doutor, a anestesia não dá problema no parto?

Resposta certa: ela pode atrasar um pouco o parto e aumentar a chance do uso de fórceps. Eu prefiro que a gente deixe a decisão para o mais tarde possível. E se o parto puder ser sem anestesia, melhor ainda!
Resposta errada: não! Hoje em dia a anestesia é super segura, feita bem embaixo para você poder ter todas as sensações, mas não sentir a dor. Eu mesmo só faço parto normal com anestesia, porque não gosto de ver paciente minha sofrendo…

4) Doutor, e se passar de 40 semanas?

Resposta certa: a gente vai esperando e monitorando o bem-estar do bebê, pois nunca aconteceu de um bebê ficar na barriga até a infância. Uma hora tem que nascer. Se a gente vê que lá dentro não está tão seguro, então a gente induz (estimula as contrações uterinas). Mas isso dificilmente acontece antes de entrar na 42ª semana.
Resposta errada: a gente induz quando completar 40 semanas, porque depois disso o bebê pode morrer dentro da sua barriga… ou pior… bom, senão entrou em trabalho de parto até 40 semanas, é porque não vai mais entrar. Tem que ser por cesárea mesmo.

5) Doutor, a cesárea é arriscada?

Resposta certa: veja bem, a cesárea é uma cirurgia e tem os riscos de uma cirurgia. O parto vaginal não corta seu abdômen, não há grandes perdas sangüíneas, é um processo fisiológico e de rápida recuperação. A cesárea é uma cirurgia cada vez mais segura, mas ainda assim traz 4 vezes maior taxa de mortalidade do que um parto normal.
Resposta errada: não, hoje em dia a cesárea está superdesenvolvida e quando acontece alguma coisa é muito simples corrigir. E geralmente essas histórias que a gente ouve de cesáreas que deram problema, foi por imperícia de alguém. Eu mesmo nunca tive um problema mais sério fazendo cesárea. Mesmo as hemorragias, choques e convulsões foram resolvidos com alguns procedimentos.
Agora é com você!
Retirado daqui
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